Tópico

Alimentação


É essencial garantir que a pessoa com demência tenha uma alimentação equilibrada, esteja bem hidratada e que a altura da refeição seja uma experiência agradável e positiva para si. 

No entanto, as dificuldades de memória e de raciocínio e as alterações do comportamento e dos sentidos podem ser obstáculos à alimentação da pessoa e tornar as refeições em momentos desgastantes e frustrantes para a pessoa e para os seus cuidadores. 

Para além disso, uma alimentação pobre poderá, por seu lado, fazer com que a saúde da pessoa piore e as suas alterações de comportamentos se tornem mais marcadas. 

Como tal, a pessoa com demência precisará sempre de algum apoio ao nível do comer e beber para assegurar que se alimenta devidamente. 


Dificuldades Experienciadas 

Alguns dos problemas que a pessoa poderá ter, ao nível da alimentação, são: 

  • Dificuldade em preparar refeições de forma autónoma; 
  • A pessoa bloquear se lhe forem dadas demasiados opções de comida; 
  • Perda de interesse em comer e beber; 
  • Diminuição do apetite; 
  • Apetite exagerado que a leva a comer demais; 
  • Esquecer-se de comer e beber; 
  • Esquecer-se de que já comeu; 
  • Dificuldades em utilizar talheres e outros utensílios necessário para a refeição; 
  • Não saber o que fazer com a comida que tem no prato; 
  • Dificuldades em reconhecer a comida; 
  • Pôr demasiada comida na boca; 
  • Comer demasiado depressa; 
  • Tentar comer objetos não comestíveis; 
  • Desejar determinadas comidas mais que o habitual, em especial doces; 
  • Resistência ou recusa em comer; 
  • Tentar engolir sem primeiro mastigar; 
  • Dificuldades em engolir. 

Para podermos ajudar a pessoa, facilitar os momentos de refeição e garantir uma boa nutrição, é importante tentarmos compreender o que está a provocar determinado problema, o que poderá não ser uma tarefa fácil, especialmente quando a pessoa com demência já não tem capacidade para explicar o que se passa. 

Para o fazermos será útil ter em consideração os hábitos e rotinas alimentares da pessoa ao longo da vida – por exemplo, a que horas preferia comer, que comidas preferia e detestava –, o que poderá facilmente explicar algumas das suas atitudes. 

Devemos ter sempre presente que a pessoa não está a ser difícil de propósito e que os seus comportamentos não têm motivos pessoais, mas são sim resultado das dificuldades provocadas pela doença. 


Causas Frequentes

Apresentamos, de seguida, algumas causas frequentes de problemas relacionados com a alimentação: 

  • Perda de memória: a pessoa pode esquecer-se de comer ou beber; 
  • Dificuldades de planeamento e execução: problemas em planear, seguir e realizar os passos necessários para uma tarefa podem fazer com que seja difícil para a pessoa cozinhar ou preparar refeições; 
  • Alterações da percepção: a pessoa pode ter dificuldade em reconhecer a comida; 
  • Dificuldades motoras e de coordenação: mudanças físicas podem fazer com que utilizar talheres se torne difícil para a pessoa; 
  • Alterações dos sentidos: uma diminuição do paladar e olfato podem fazer com que a pessoa perca o interesse pela comida; 
  • Agitação: poderá fazer com que seja mais difícil a pessoa comer durante as refeições; 
  • Problemas de dentes: aftas (feridas na boca) ou próteses dentárias desconfortáveis poderão fazer com que a pessoa recuse a comida ou a bebida; 
  • Medicação: alguma medicação pode fazer com que o apetite diminua; 
  • Falta de exercício: falta de exercício pode resultar numa diminuição do apetite; 
  • Depressão: se a pessoa ficar deprimida, isso pode fazer com que perca o interesse na comida e o seu apetite diminua; 
  • Prisão de ventre: uma alimentação pobre em fibras, o consumo reduzido de água e a falta de exercício aumentam o risco de prisão de ventre, o que pode conduzir a uma diminuição do apetite; 
  • Dificuldades em mastigar e engolir: em fases mais avançadas da demência, é provável que a pessoa tenha maior dificuldade em mastigar, engolir e mesmo na digestão dos alimentos. 


Estratégias


Mesmo que não seja possível determinar uma razão específica para determinado problema, existem várias estratégias para tornar a alimentação e a altura das refeições mais fáceis e agradáveis. 

Ao manter a pessoa incluída na preparação das refeições, ao dar indicações e ao adaptar utensílios e rotinas, a pessoa com demência pode ser incentivada a comer, muitas vezes de forma independente, tornando a refeição num momento pouco desgastante e mesmo positivo. 

De seguida, apresentamos estratégias para facilitar a alimentação de uma pessoa com demência e para lidar com algumas das dificuldades mais frequentes. 

CATEGORIAS:

É importante termos noção que o que funciona num dia poderá não funcionar no outro, pelo que é importante não desesperarmos e termos a flexibilidade de experimentar novas estratégias. 


Comida e Nutrição 

Comida 

  • Ter em conta a relação da pessoa com a comida. Por exemplo, se a pessoa sempre teve pouco apetite, se sempre gostou de comer muito, se comia três grandes refeições durante o dia ou se preferia comer menos, mas várias vezes. Esse conhecimento poderá facilitar a alimentação da pessoa; 
  • Ter em conta as preferências da pessoa. Os alimentos, pratos e temperos que prefere ou que não gosta podem contribuir para a sua vontade de comer e, para além disso, são também uma forma de honrar a sua identidade. Se possível, perguntar à pessoa o que ela gostaria de comer. Se não conseguir decidir espontaneamente, dar-lhe duas opções simples de pratos ou comidas que se saiba que ela gosta; 
  • Ser flexível com as escolhas da pessoa. É possível que a pessoa comece a preferir determinados tipos de comida, a rejeitar comidas de que sempre gostou, a aceitar comidas de que não gostava ou a ficar incomodada com cheiros, cores e texturas específicas. A demência provoca este tipo de alterações com frequência e é preciso adaptarmo-nos a estas mudanças que, muitas vezes, acontecem subitamente; 
  • Verificar a temperatura da comida e bebida. Uma pessoa com demência poderá já não ser capaz de perceber se a comida ou bebida está demasiado quente, pelo que se deve sempre verificar antes de servir. Para além disso, há pessoas que preferem comida mais quente e outras que preferem comida mais fria, o que também deve ser tido em conta. A temperatura da comida é, por vezes, um motivo para a pessoa cuspir a comida e não necessariamente o facto de não gostar do que foi servido; 
  • Contrastar a cor da comida com a cor do prato. Comida clara como puré de batata ou couve-flor poderá ser difícil de identificar se for servida num prato branco ou creme. Nesse caso servir, por exemplo, num prato vermelho, fará com que a pessoa encontre a comida com mais facilidade; 
  • Servir refeições que possam ser comidas com a mão. Isso vai permitir que a pessoa se continue a alimentar sozinha, mantendo algum nível de independência, quando já tem muita dificuldade em utilizar os talheres. Também é muito útil para pessoas mais inquietas, que é difícil manter sentadas durante a refeição, permitindo que a pessoa vá pegando e comendo; 
  • Estas refeições podem ser: 
    • Pratos normais preparados de uma forma que seja fácil de pegar com as mãos. A comida pode ser cortada em pequenos pedaços, devendo remover-se ossos e outros elementos não comestíveis do prato, para que a pessoa não os ingira sem querer. Alguns exemplos são carne, peixe ou hambúrgueres (de carne ou vegetarianos) cortados aos cubos ou às tiras; 
    • Sanduíches nutritivas, como sanduíches de atum ou com carne, onde podem ser incluídos vegetais. Pode ser feito numa única sanduíche ou em várias pequenas sanduíches; 
    • Aperitivos e comidas naturalmente mais pequenas e fáceis de comer, como cubos de queijo, nuggets de frango, douradinhos, pedaços de brócolos, couve-flor ou feijão-verde, gomos de laranja, pedaços de maçã ou de outra fruta. A fruta pode ser descascada, mas a casca poderá tornar mais fácil a pessoa agarrar nos pedaços, especialmente se for um tipo de fruta mais escorregadio;
    • Comida servida numa caneca (por exemplo, sopa), uma vez que a capacidade de segurar e beber de uma caneca tende a manter-se até uma fase tardia da demência. 
  • Servir primeiro a comida mais nutritiva. Se a pessoa não conseguir tomar uma refeição completa ou tiver a tendência para, passado algum tempo, recusar comer, o melhor será sempre servir a comida mais nutritiva primeiro para garantir que a pessoa mantém uma alimentação equilibrada e sem carências. 


Nutrição 

Uma alimentação saudável e equilibrada é uma parte importante da a saúde física e mental de todos nós. Não comer ou beber o suficiente pode aumentar o risco de desidratação, perda de peso, infeções urinárias e prisão de ventre. 

Estes problemas são particularmente graves para uma pessoa com demência, pois podem conduzir a um agravamento das suas dificuldades, incluindo maior confusão, irritabilidade, dificuldade em dormir e dificuldade em se orientar. 

Uma pessoa com demência não precisa de uma alimentação especial – como todas as pessoas, precisa apenas de garantir uma alimentação equilibrada e nutritiva. 

  • Favorecer uma alimentação equilibrada e variada. Oferecer vegetais, fruta, cereais integrais, lacticínios magros e proteínas magras (com pouco teor de gordura). Garantir que as refeições têm muita fibra é importante para evitar a prisão de ventre, uma condição comum em pessoas com demência; 
  • Reduzir comidas elevadas em gorduras saturadas e colesterol. Alguns tipos de gordura são benéficos para a saúde, mas nem todas. É aconselhável reduzir gorduras que possam prejudicar o coração, tais como manteiga, margarina e óleos vegetais sólidos, banha e carnes com muita gordura; 
  • Reduzir açúcares refinados. Normalmente presentes em comidas processadas, os açúcares refinados contêm calorias, mas não têm vitaminas, minerais e fibra. Se a pessoa desenvolver um grande desejo de doces, uma solução poderá ser dar-lhe opções mais saudáveis, como pedaços de fruta ou comida embebida em sumos de fruta. No entanto, numa fase mais avançada da doença, se a perda de apetite for um problema, adicionar um pouco de açúcar à comida poderá incentivar a pessoa a comer; 
  • Usar menos sal e limitar comida com elevado nível de sódio. Consumir muito sódio pode afetar a pressão arterial. Como alternativa ao sal, pode temperar-se a comida com ervas e especiarias; 
  • Evitar comidas difíceis de mastigar e engolir, pois aumentam o risco de asfixia, tais como cenouras cruas, pipocas e frutos secos; 
  • À medida que a doença progride, a perda de apetite e de peso pode ser uma preocupação. Se isso acontecer, batidos vitamínicos e suplementos de alimentação líquidos podem, por vezes, substituir uma refeição completa. O médico que acompanha a pessoa pode também sugerir suplementos vitamínicos; 
  • Sempre que houver dúvidas com a nutrição ou que a pessoa comece a perder peso, deve consultar-se o médico de família ou o médico especialista. 


Bebida e Hidratação 

As pessoas com demência não só têm maior dificuldade em reconhecer que estão com sede, como podem ter dificuldades em comunicar quando têm e podem esquecer-se de beber líquidos, o que aumenta muito o risco de ficarem desidratadas. 

Para além disso, o fraco consumo de líquidos pode também provocar prisão de ventre (outras causas são uma alimentação pobre em fibra e efeitos secundários de alguma medicação). 

Alguns dos sinais de desidratação a que se deve estar atento são: 

  • Boca seca; 
  • Saliva mais pegajosa; 
  • Diminuição da quantidade de urina; 
  • Urina de cor escura. 


Estratégias

Algumas estratégias para ajudar a pessoa a estar hidratada são: 

  • Recordar a pessoa para beber líquidos, com regularidade, pois a ela poderá não se recordar de o fazer. Para favorecer que se lembre, colocar copos com água ou outros líquidos ao pé da pessoa, como pista visual, sempre que possível. Por vezes, colocar líquidos na caneca ou copo preferidos da pessoa pode fazer com que ela beba mais vezes; 
  • Oferecer copos de água, sumo ou outros líquidos, várias vezes ao dia, e não apenas às refeições. É recomendável beber entre oito a dez copos de líquidos por dia; 
  • Oferecer comida com muita água, tal como gelatina, fruta (melão e meloa), vegetais (alface e pepino), sopas, batidos, iogurtes ou queijo fresco; 
  • Dar opções de líquidos conforme as preferências da pessoa. Por exemplo, líquidos quentes ou frios ou, caso a pessoa não goste muito de beber água, adicionar um pouco de sumo concentrado para lhe dar sabor; 
  • Evitar bebidas alcoólicas, pois podem contribuir para maior confusão e agitação e aumentam o risco de quedas, especialmente tendo em conta que a pessoa pode não se recordar o que já bebeu. Se for importante para a pessoa beber, por fazer parte de um hábito que sempre teve ou porque lhe dá algum prazer, sugere-se que se restrinja o acesso às bebidas, se reduza o número de bebidas disponíveis em casa e se misture as bebidas alcoólicas com água. A mistura com água é uma estratégia muito eficaz quando a pessoa insiste em querer beber mais do que um ou dois copos; 
  • Evitar bebidas com cafeína, pois aumentam o risco de desidratação; 
  • Se a pessoa tiver tendência a estar inquieta e a não se querer sentar para tomar a refeição, oferecer garrafas de água e pacotes de sumo ou comida mais portátil, como fruta, para que a pessoa se mantenha hidratada enquanto anda; 
  • Se a pessoa não quiser beber líquidos porque se urina com facilidade ou tem medo que não consiga chegar à casa-de-banho a tempo, pode-se: 
    • Tentar garantir que a pessoa encontra a casa-de-banho com rapidez, ao colocarem-se sinais a indicar o caminho ou colocar uma fotografia da casa-de-banho na porta para que a pessoa a reconheça com facilidade (pode encontrar mais dicas sobre como encontrar a casa-de-banho com facilidade aqui); 
    • Experimentar utilizar um bacio ao lado da cama ou uma arrastadeira, ou comprar ou alugar uma cadeira sanitária e colocá-la perto da zona onde a pessoa passa mais tempo. 
  • A pessoa pode não beber tantos líquidos porque já tem dificuldade em segurar no copo ou caneca. Nesse caso, há que se experimentar vários tipos de copo ou caneca para ver qual funciona melhor para a pessoa, ou então recorrer mesmo a copos adaptados (copos inclinados, copos com pegas ou copos com tampa) ou recorrer a palhinhas dobráveis. 


Refeições – Horários e Socialização 

  • Tomar as refeições à mesma hora, todos os dias. As refeições são uma boa forma de ajudar uma pessoa com demência a manter a orientação no tempo, uma vez que lhe dá pontos de referência ao longo do dia; 
  • Ser flexível com o horário das refeições se a pessoa estiver cansada ou agitada. Tentar servir a comida numa altura em que ela esteja mais calma e alerta. É melhor jantar às 22 horas do que não jantar às 20 horas; 
  • Fazer refeições mais pequenas e mais frequentes. Se as refeições normais se tornarem muito longas e difíceis, em vez de três refeições fazer cinco ou seis, ou fazer refeições mais pequenas e oferecer comida ao longo do dia. Se possível, tentar que sejam sempre nos mesmos horários; 
  • Tornar as refeições momentos de socialização. Os momentos de refeição não servem apenas para comer, são também momentos de estar com os outros e de partilhar experiências, falar sobre como correu o dia. Tomar as refeições em conjunto com outras pessoas pode ser algo que a pessoa com demência aprecia no seu dia e reduz o seu isolamento. Mesmo que a pessoa não consiga falar, ela pode ainda escutar as conversas, o que é outra forma de estar incluída; 
  • Para além disso, tomar a refeição com outras pessoas pode conferir uma estrutura ao dia, ajudar a pessoa com demência a desfrutar mais da comida e até incentivá-la a comer, muitas vezes por copiar aquilo que os outros à sua volta estão a fazer; 
  • Mesmo que não seja altura da sua refeição, o cuidador pode sentar-se à mesa com a pessoa e colocar alguma comida no seu próprio prato, o que poderá ser suficiente para que a pessoa com demência tome a refeição com mais tranquilidade; 
  • Almoços com família e amigos poderão permitir que a pessoa se mantenha ligada a pessoas que são importantes para si, mas é aconselhável que sejam grupos pequenos pois a pessoa poderá facilmente ficar nervosa e perturbada se existir muito barulho ou intensidade. Para além disso, quanto mais pessoas, barulho, pratos e talheres na mesa, mais difícil se torna para a pessoa encontrar a comida e concentrar-se em comer; 
  • Nem todas as pessoas preferem socializar. É importante ter em consideração que algumas pessoas poderão sentir-se envergonhadas e desconfortáveis ao comer com companhia. Se assim for, não se deve forçar a pessoa a fazê-lo. Há pessoas que se sentem mais confortáveis a comer sentadas no sofá, na sala, por exemplo. Se for essa a sua vontade e facilitar a toma da refeição, então deverá respeitar-se e recorrer, por exemplo, a tabuleiros estáveis onde a pessoa possa comer. 


Preparar a Mesa e o Ambiente – Favorecer a Concentração 

  • Reduzir distrações. As pessoas com demência têm dificuldade em manter a concentração, pelo que é essencial reduzir ao máximo as distrações. Servir as refeições num local calmo, desligando a televisão, o rádio e o toque dos telefones e parar outras atividades que possam interferir com a concentração da pessoa; 
  • Garantir uma atmosfera confortável e sem pressa. O conforto pode afetar o prazer da pessoa a comer e a quantidade que come. Para criar um ambiente calmo, que facilite a concentração, pode pôr-se a tocar uma música relaxante ou familiar durante a refeição e certificar-se que a pessoa está sentada de forma confortável e adaptada à sua mobilidade. Se possível, deixar a pessoa decidir onde se prefere sentar; 
  • Garantir uma boa iluminação, especialmente sobre a comida, para que a pessoa a reconheça com maior facilidade; 
  • Simplificar a mesa e a zona de refeições. Remover flores, velas, centros de mesa e outros objetos decorativos da mesa, bem como quaisquer objetos não relacionados com a refeição. Utilizar apenas os utensílios necessários à refeição e remover os restantes. Colheres, facas ou copos que não serão utilizados podem gerar confusão na pessoa ou mesmo agitação. Em vez ter o saleiro, o azeite e o vinagre na mesa, pergunte antes que temperos e condimentos a pessoa gostaria e dê-lhes, um de cada vez, e retire-os da mesa depois de utilizados. Para mais estratégias úteis relacionadas com a zona de refeição, consulte Zona de Refeições;
  • Servir um prato de cada vez e apenas os talheres necessários. Isso fará com que a pessoa tenha um objetivo claro e previne que a pessoa se sinta sobrecarregada por não saber o que deve fazer. Por exemplo, colocar apenas a tijela de sopa na mesa e uma colher. Depois de a sopa ser comida, remover a tijela e a colher e colocar o prato principal e um garfo e faca; 
  • Oferecer poucos tipos de comida de cada vez. A pessoa poderá ser incapaz de decidir o que comer se tiver vários tipos de comida no prato, o que lhe poderá provocar frustração. Deve-se servir apenas dois ou três tipos de comida ao mesmo tempo. Por exemplo, carne com batatas e sem mais acompanhamentos.


Ajudar a Comer – Independência, Pistas e Indicações 

  • Dar tempo e ser paciente. Não apressar a refeição. A pessoa poderá parar de comer e recomeçar várias vezes, pelo que é importante ter em mente que a refeição poderá durar uma hora ou mais. Apressar a refeição poderá deixar a pessoa mais frustrada e agitada e dificultar ainda mais a toma da refeição; 
  • Favorecer que a pessoa coma sozinha. Evitar alimentar a pessoa cedo demais, deixá-la alimentar-se de forma independente sempre que possível. Dar assistência apenas quando for necessário; 
  • Não dar importância à desarrumação ou sujidade. Uma vez que se tenta favorecer a independência durante o maior período de tempo possível, é natural que a zona de refeição fique mais desarrumada. É preciso tentarmos não nos preocupar com desarrumação, comida caída ou fora do prato – é mais importante que a pessoa coma sozinha do que coma de forma muito limpa ou organizada; 
  • Para facilitar a limpeza, pode convidar-se a pessoa a usar um avental – especialmente se estiver habituada a usar –, um guardanapo no colo ou no pescoço, ou uma peça de roupa específica para a refeição, que seja de fácil lavagem. Deve evitar-se a utilização de babetes ou outro tipo de adereços para crianças; 
  • Na mesa, para que a comida caída seja fácil de apanhar e limpar, utilizar-se uma cobertura de plástico, um individual de plástico ou uma toalha de papel que se possa remover e deitar fora sem perturbar a pessoa com demência. Deve evitar-se fazer comentários sobre sujidade ou comida caída, porque poderão envergonhar a pessoa; 
  • Perguntar se precisa de ajuda. Se a pessoa tiver dificuldades durante a refeição, antes de se dar apoio, deve perguntar-se à pessoa se precisa de ajuda. É preciso resistir à tentação de ser o cuidador a alimentar a pessoa, sendo aconselhável primeiro dar-se pistas ou instruções de forma a tentar favorecer a independência; 
  • Explicar e mostrar, através de palavras ou ações. Utilizando um tom de voz calmo e tranquilizante, dar instruções simples e fáceis de entender, dividindo-as a em pequenos passos. Por exemplo: “Pega no garfo. Espeta o garfo na carne. Leva-o à boca. Agora mastiga bem.”; 
  • Também pode mostrar-se à pessoa como o fazer e pedir para ela imitar. Por exemplo, podemos dizer “Olha para mim, vê como eu faço” e depois mostrar como pegar na colher, como utilizá-la no prato e como levá-la à boca. Ou, num momento em que a pessoa esteja confusa sobre o que fazer, demonstrar exatamente o que é suposto, por exemplo fingindo que se está a mastigar, caso a pessoa se tenha esquecido, ou levando o copo à boca para a relembrar de beber água; 
  • Guiar a mão. Se pistas e explicações já não forem úteis, uma boa estratégia será colocar a mão à volta da mão da pessoa que está a segurar um talher ou copo e, gentilmente, conduzir a sua mão em direção à comida ou à boca. Por vezes, depois de se fazer isto algumas vezes, a pessoa poderá recordar as ações e começar a fazê-las sozinha. Outras vezes, apenas colocar um utensílio na mão da pessoa poderá ser o suficiente para estimular a sua memória sobre o que tem que fazer; 
  • Mastigar e engolir. Poderá ser necessário relembrar a pessoa que deve mastigar a comida cuidadosamente e engoli-la devagar. Se for esse o caso, é importante estar-se atento a sinais de asfixia (ver Dificuldades em em Mastigar e Engolir); 
  • Manter o contacto visual. Olhar a pessoa nos olhos e sorrir, durante algum tempo, pode ajudar a pessoa a concentrar-se melhor na tarefa e a seguir as indicações. Também poderá ser útil ir explicando à pessoa com demência que comida lhe está a ser servida;
  • Utilizar a técnica da Palma com Palma. Esta técnica, desenvolvida pela terapeuta ocupacional Teepa Snow, é muito útil para quando a pessoa com demência já precisa de mais ajuda para executar as tarefas; 
  • A técnica consiste em oferecer a mão à pessoa e colocá-la sobre a mão dela como se fôssemos dar um aperto de mão, palma com palma. No entanto em vez de apertar a mão, movemos suavemente a nossa mão por cima e à volta da mão da pessoa, ficando os polegares colados e permitindo que a pessoa com demência agarre a nossa mão também; 
  • Esta pega dá ao cuidador controlo sobre os movimentos da pessoa, grandes ou pequenos, controlando o pulso, antebraço, cotovelo e ombro. Através desta técnica podemos, por exemplo, ajudar a pessoa a utilizar o garfo quando já não o consegue fazer sozinha. Apesar de ser o cuidador a fazer todo o movimento (é a mão do cuidador que segura o garfo), a pessoa sente que é ela que o está a fazer, o que lhe dá algum sentido de participação e independência. Esta técnica pode facilitar muito o apoio ao nível da toma da refeição, mas também ao nível da higiene e cuidados pessoais, do vestir e despir ou mesmo do sentar e levantar.

No final desta secção encontrará um vídeo com uma breve demonstração de como utilizar a técnica da Palma com Palma para apoiar uma pessoa com demência na alimentação.


Manter a Pessoa Envolvida na Preparação das Refeições 

  • Manter a pessoa envolvida na preparação da comida e do momento da refeição poderá ajudá-la a manter algumas capacidades, mas também estimular o seu interesse em comer e beber. Assim, sempre que possível, deve tentar-se que a pessoa faça tarefas associadas com a preparação das refeições; 
  • As tarefas devem ser adaptadas às capacidades das pessoas, fornecendo-se instruções simples e detalhadas (passo a passo), dando ajuda sempre que seja necessário e alterando ou simplificando as tarefas de forma a que a pessoa as consiga realizar; 
  • Ao nível da preparação da comida, as atividades podem ser separadas em tarefas individuais que a pessoa pode fazer, como cortar ou descascar vegetais ou colocar manteiga no pão; 
  • Ao nível da preparação da mesa, pode-se pedir à pessoa que ponha os pratos, talheres e guardanapos e também que os levante depois da refeição; 
  • É importante que a pessoa faça o máximo que consiga de forma independente, devendo-nos focar naquilo que ela ainda consegue fazer e elogiar o seu desempenho. 


Adaptar os Utensílios às Dificuldades Visuais e Motoras da Pessoa 

A demência provoca na pessoa dificuldades em identificar os objetos, os que torna difícil distingui-los na mesa. Para além disso, pode também afetar o movimento e coordenação da pessoa, tornando difícil que use os utensílios necessários a uma refeição. 

Aqui ficam algumas estratégias que podem ajudar a identificar os objetos e a adaptar os utensílios à capacidade da pessoa. 


Identificação dos Objetos 

  • Loiça, talheres e copos de cores diferentes e contrastantes da mesa, da toalha de mesa ou dos individuais, para ajudar à identificação e visibilidade dos vários objetos; 
  • O individual deve contrastar com a mesa ou toalha de mesa, facilitando a definição da área da refeição; 
  • Utilizar loiça simples e de cores sólidas, pois os padrões podem ser confusos e distrair a pessoa, dificultando a distinção entre o prato e a comida; 
  • O prato e a restante loiça devem contrastar com o individual ou toalha de mesa, para facilitar a definição dos seus limites; 
  • O prato deverá ser de uma cor sólida, preferencialmente branco, para fazer sobressair a comida e torna-la mais fácil de encontrar. Outra estratégia será utilizar pratos brancos com uma cor diferente apenas no rebordo; 
  • Os talheres devem também contrastar com o individual ou toalha de mesa. Se necessário, utilizar talheres coloridos ou de cabo colorido, ao invés dos mais típicos talheres de metal; 
  • Se a pessoa estiver com dificuldades em encontrar o copo de vidro, utilizar copos de vidro colorido, copos coloridos de outro material que não vidro ou colocar uma manga ou banda colorida no copo, o que para além de ajudar a identificar poderá também ajudar a pessoa a agarrar, se tiver dificuldades. No entanto, é importante ter em consideração que a maior parte das pessoas têm como referência copos de vidro transparentes, pelo que algumas podem ter dificuldades em identificar um copo se for diferente; 
  • Um exemplo de aplicação destas estratégias poderá ser: toalha de mesa ou individual vermelho, prato branco, talheres com cabo amarelo, copo de vidro com uma manga de silicone verde ao redor. 


Adaptação dos Utensílios 

  • Ponderar ajudas técnicas de adaptação dos objetos que favorecem a autonomia da pessoa; 
  • Não só devido às dificuldades da demência mas também por outras dificuldades (como acidentes vasculares cerebrais ou artrite), pode tornar-se muito difícil para algumas pessoas agarrar os talheres ou o copo. Nesses casos, existem equipamentos a que se pode recorrer para facilitar o uso desses objetos; 
  • Se a pessoa tiver dificuldade em agarrar ou segurar nos talheres, uma estratégia é torna os cabos dos talheres mais grossos ao inseri-los em tubos de esponja; 
  • Outra estratégia é comprar talheres com cabos já desenvolvidos para essas situações, que os tornam mais fáceis de agarrar, em lojas especializadas ou recorrer a bancos de ajudas técnicas; 
  • Se a pessoa tiver dificuldade em segurar no copo ou em incliná-lo para beber, uma boa estratégia é comprar um copo inclinado ou um copo com pegas; 
  • Se a pessoa tiver tendência a entornar os líquidos, por exemplo por a mão tremer muito, pode-se encher o copo pela metade, ou utilizar-se copos ou canecas com tampa e que têm uma pequena abertura por onde a pessoa pode beber; 
  • Se a pessoa tiver dificuldades em cortar comida, pode experimentar-se colocar um tapete antiderrapante ou um pano molhado debaixo do prato ou individual; 
  • Se a pessoa tiver dificuldades em apanhar a comida no prato, uma boa estratégia poderá ser utilizar uma taça de sopa em vez de um prato, ou então utilizar um rebordo para o prato – uma placa de plástico ajustável que se coloca sob pressão ao redor do bordo de qualquer prato, evitando assim que a comida escorregue para fora e servindo ao mesmo tempo de suporte para a apanhar com os talheres. Também poderá ser útil a pessoa passar a utilizar colheres em vez de garfos ou, caso já não consiga utilizar os talheres, e se a pessoa se sentir confortável com isso, deixá-la comer com as mãos, o que será uma forma de promover ainda alguma independência; 
  • Se a pessoa já tiver alguma dificuldade em ingerir líquidos – por exemplo, por se engasgar com maior facilidade – uma boa estratégia poderá ser recorrer a palhinhas dobráveis ou então colocar um espessante no líquido para reduzir o risco de engasgamento. No entanto, nesses casos, sugere-se sempre consultar o médico que acompanha a pessoa. 


Outras Estratégias 

  • Anotar as horas, comida e quantidade que a pessoa comeu a cada refeição. Isto permitirá perceber se as quantidades e tipos de comida que ingeriu a cada dia são suficientes, mas também torna mais fácil detetar algum padrão ou alteração, que depois se pode partilhar com o médico que acompanha a pessoa. No entanto, se esta tarefa for muito desgastante para quem cuida, no meio de tudo aquilo que precisa de fazer, nesse caso será melhor não se preocupar com isso e focar-se apenas em dar comida nutritiva à pessoa; 
  • Pedir ajuda a família e amigos. Cuidar de uma pessoa com demência é difícil e a altura das refeições pode ser muito desgastante. Pedir ajuda a alguém pode facilitar a refeição e reduzir esse desgaste; 
  • Fazer várias refeições no fim-de-semana e congelá-las, para que já se tenha comida preparada para uma ou duas semanas; 
  • Fazer uma pausa. Estar sempre a planear e preparar comida para a pessoa com demência pode ser muito cansativo. Encomendar comida ou mesmo ir comer fora, se for possível, pode ser uma boa alternativa; 
  • Antes da refeição, levar a pessoa à casa-de-banho, se for possível; 
  • Aceitar que alguns dias serão melhores e outros piores, nunca esquecendo que se está a fazer o melhor que se consegue. 


Dificuldades Específicas Frequentes


Esquecimentos 

Se a pessoa se esquecer de comer e beber, pode-se tentar: 

  • Dar pistas visuais, por exemplo pondo a mesa ou deixando a comida e bebida em locais que a pessoa veja; 
  • Deixar lembretes em papel em locais bem visíveis, como a porta do frigorífico, colocar um alarme às horas da refeição, no telemóvel ou utilizando um temporizador. Os lembretes devem ser ajustados às capacidades da pessoa (para mais informação, consultar Auxiliares de Memória); 
  • Telefonar à pessoa no horário das refeições; 
  • Em fases moderadas e avançadas, as alterações de memória já serão muito marcadas e por isso será sempre necessário alguém certificar-se que a pessoa come, pois por mais que a lembrem que o tem que fazer, ainda assim ela irá esquecer-se. 

Se a pessoa não se recordar de que já comeu e insistir em fazê-lo novamente, pode-se tentar: 

  • Partir a refeição em várias pequenas “refeições”, servindo a pessoa sempre que ela quiser comer. Tentar servir, nas primeiras “refeições”, as comidas mais nutritivas; 
  • Ter disponível vários aperitivos saudáveis para dar à pessoa quando ela manifesta vontade de comer. 


Recusar ou Cuspir Comida 

Estes comportamentos podem acontecer porque a pessoa: 

  • Não gosta do sabor ou textura da comida; 
  • Está confusa e não percebe que é altura para comer; 
  • Está a tentar comunicar algo que lhe desagrada, como por exemplo que a comida está demasiado fria ou quente; 
  • Pode não estar a sentir-se bem ou ter dores de dentes ou a gengiva inflamada; 
  • Se esqueceu de como comer, mastigar ou engolir (isto pode também provocar o comportamento oposto, a pessoa manter a comida na boca sem engolir por não saber o que fazer com ela). 

Algumas estratégias a experimentar são: 

  • Explicar à pessoa que é altura da refeição e que, por isso, lhe vai ser servida comida; 
  • Verificar a temperatura da comida antes de servir, para garantir que não está nem muito fria, nem muito quente; 
  • Oferecer à pessoa as suas comidas favoritas; 
  • Recordar a pessoa que deve engolir a comida se esta não se recordar do que fazer depois de a mastigar; 
  • Fazer visitas regulares ao dentista para garantir que não há nenhum problema de dentes ou gengiva; 
  • Consultar um médico ou um terapeuta da fala para perceber se existem alterações físicas na capacidade de engolir. 


Afastar a Comida ou Agredir o Cuidador 

Estes comportamentos podem acontecer porque: 

  • O ambiente onde a pessoa está a tomar a refeição está a perturbá-la, por exemplo, por existir demasiado ruído; 
  • A pessoa está confusa e ninguém lhe explicou que é a hora da refeição; 
  • A pessoa está frustrada devido às suas dificuldades de movimento, coordenação ou memória; 
  • A pessoa pode não estar a reconhecer a comida que tem no prato, interpretando-a como outra coisa (por exemplo, insetos); 
  • A pessoa precisa de ajuda que não está a receber; 
  • A pessoa está a ser pressionada para comer depressa; 
  • A pessoa não quer ou não consegue estar sentada durante uma refeição inteira; 
  • A pessoa percebe que o cuidador está frustrado ou nervoso; 
  • A pessoa está deprimida; 
  • Alguma medicação está a provocar a agitação ou agressividade. 

Algumas estratégias a experimentar são: 

  • Explicar à pessoa que está na refeição e que se vão sentar para a comer; 
  • Servir apenas um prato ou tipo de comida de cada vez; 
  • Não apressar a pessoa, deixando-a parar e recomeçar as vezes que forem necessárias; 
  • Se a pessoa se recusar a comer, distraí-la com outra atividade e esperar algum tempo. Talvez mais tarde a pessoa já aceite comer; 
  • Se a pessoa não se quiser sentar ou não aguentar estar sentada durante uma refeição inteira, oferecer comidas mais portáteis e que a pessoa possa comer com a mão, em andamento – para ideias sobre este tipo de comida, ver "Servir refeições que possam ser comidas com a mão", em Comida e Nutrição
  • Se a pessoa não estiver a reconhecer a comida como tal, falar com ela sobre a comida, de um modo calmo, explicando o que e cada coisa que está no prato. Se ainda assim a pessoa continuar a não querer comer, então deve remover-se essa comida do prato; 
  • Consultar o médico especialista ou o médico de família caso pareça que o que está a provocar o comportamento é depressão ou alguma medicação; 
  • Evitar: 
    • Introduzir novas rotinas de refeição, como por exemplo servir pequeno-almoço a uma pessoa que não costumava tomar o pequeno-almoço; 
    • Insistir para que a pessoa coma, pois isso não irá gerar fome ou cooperação na pessoa, podendo até torná-la mais agressiva; 
    • Deixar comida em frente da pessoa e esperar que ela coma quando é evidente que a pessoa não está interessada em comer; 
    • Queixar-se ou criticar a pessoa à sua frente. 


Alterações das Preferências Alimentares 

A demência pode provocar na pessoa alterações do paladar, fazendo com que a pessoa comece a apreciar sabores que não apreciava ou a não gostar de comidas que sempre gostou. 

Para além disso, as dificuldades de memória e raciocínio podem também fazer com que a pessoa faça escolhas que não vão ao encontro às suas preferências ou ideais da altura em que não tinha a doença. 

Por exemplo, uma pessoa que era vegetariana poderá querer comer carne porque: 

  • O seu paladar se alterou; 
  • Se lembra da altura em que comia carne (antes de ser vegetariana); 
  • Se esqueceu de que não come carne; 
  • Viu alguém a comer carne e quer comer a mesma coisa, mesmo que não saiba que comida é. 

Algumas sugestões para lidar com as alterações das preferências alimentares são: 

  • Deixar a pessoa escolher o que quer comer, mesmo que as combinações de comida sejam estranhas e fora do habitual; 
  • Deixar a pessoa escolher quando quer comer, pois também isso poderá ir alterando ao longo da doença. É sempre útil estabelecer uma rotina de refeição, especialmente em sintonia com os horários que a pessoa sempre teve, mas caso ela comece a manifestar preferência por diferentes horas ou alturas do dia, então adaptar a essa preferência facilitará a prestação de cuidados; 
  • Tentar servir comida de acordo com as preferências da pessoa e, caso ela apresente alguma modificação dessas preferências, tentar perceber se existe alguma razão para disso ou algum padrão (por exemplo, agora não gosta de carne ou de determinados cheiros, ou prefere comidas mais doces); 
  • Ter em atenção a forma como a pessoa digere os vários tipos de comida. Se alguma comida que agora prefere lhe provocar alterações de digestão, tentar oferecer algum substituto. Por exemplo, se a pessoa era vegetariana mas agora pede carne, tentar arranjar substitutos da carne, como seitan ou hambúrgueres vegetarianos, que serão mais fáceis de digerir para ela. 


Gosto Particular por Doces 

É também frequente a pessoa ficar mais gulosa e desenvolver um gosto particular por doces ou comidas mais doces (especialmente em demências fronto-temporais). Nesses casos, algumas estratégias a utilizar podem ser: 

  • Dar opções doces saudáveis, como pedaços de fruta, comida embebida em sumo de fruta ou vegetais naturalmente doces; 
  • Oferecer batidos ou gelados com poucas calorias; 
  • Adicionar pequenas quantidades de sumo de fruta, mel ou compota à comida, para a adocicar; 
  • Acompanhar a comida com ketchup, puré de maçã ou outros acompanhamentos doces. 


Comer Objetos Não-Comestíveis 

Com o avançar da demência, a pessoa poderá tentar comer objetos não-comestíveis tais como guardanapos ou sabão. 

Isso pode acontecer porque a pessoa já não consegue identificar o objeto e o seu propósito, porque a pessoa está com fome e pensa que aquele objeto é comida ou porque o objeto se assemelha muito a algum tipo de comida (por exemplo, algumas cápsulas das máquinas de lavar podem parecer rebuçados devido à cor). 

Se isso acontecer, algumas estratégias úteis são: 

  • Assegurar que todas as pessoas que cuidam da pessoa têm noção desse comportamento; 
  • Remover todos os pequenos objetos decorativos ou de limpeza que possam ser interpretados como comestíveis, especialmente objetos que apresentam cores vivas e que, por isso, chamam mais a atenção; 
  • Retirar plantas tóxicas, plantas ou frutas artificiais ou outros elementos decorativos que a pessoa possa confundir como algo comestível e manter a comida para animais afastada; 
  • Retirar da zona de refeição todos os objetos que não sejam comestíveis, como flores ou guardanapos; 
  • Temperar a comida antes de a servir, para que o sal, a pimenta, o azeite e o vinagre não estejam na mesa, pois a pessoa poderá querer tomá-los como se fossem comida ou bebida; 
  • Garantir que existe sempre comida facilmente acessível para quando a pessoa tem fome, especialmente aperitivos saudáveis. 


Dificuldades a Mastigar e Engolir 

Nas fases mais avançadas da doença, as pessoas tendem a perder o apetite, têm maiores dificuldades em mastigar e engolir – o que aumenta o risco de asfixia – e tornam-se incapazes de se alimentar sozinhas, pelo que terão que ser manualmente alimentadas por alguém. 

No entanto, existem também alguns tipos de demência que podem provocar alterações na mastigação e deglutição em fases mais iniciais ou moderadas. 

Para evitar a perda de peso e reduzir o risco de asfixia, deixamos algumas estratégias para que a pessoa mastigue e engula com maior facilidade: 

  • Oferecer comidas tenras ou moles. Servir comidas como puré de batata ou de maçã, fruta cozida ou fruta em calda, ovos mexidos, queixo fresco, massa, iogurte ou sopa muito passada. Evitar comidas difíceis de mastigar com frutos secos ou cenoura crua; 
  • Preparar a comida de uma forma que seja mais fácil de engolir. Cortar a comida em pequenos pedaços que a pessoa consiga engolir, triturá-la, esmagá-la ou humedecê-la com molhos ou temperos. Por exemplo: cozinhar os vegetais, para os tornar mais tenros, removendo casca e quaisquer outros elementos mais rijos; embeber os cereais no leite para ficarem mais moles; descascar e esmagar fruta fresca; 
  • Oferecer comida que possa ser tomada num copo ou caneca, uma vez que a capacidade de segurar e beber de uma caneca tende a manter-se até uma fase tardia da demência. Comida nutritiva como batidos proteicos ou suplementos líquidos podem substituir uma refeição. Pode também passar-se comidas saudáveis numa trituradora e deixar a pessoa beber a refeição; 
  • Ajudar a pessoa a mastigar. Ir recordando a pessoa que deve mastigar a comida, demonstrar o movimento de mastigação, ou mover gentilmente os lábios, queixo ou mandíbula da pessoa, imitando a forma natural de mastigar; 
  • Consultar um dentista. Apesar da demência poder provocar dificuldades a mastigar, outra causa frequente são os problemas relacionados com a boca, tais como desconforto provocado por dor de dentes ou gengiva inflamada, próteses dentárias soltas ou mal colocadas, ou boca seca. É importante ir tendo consultas de rotina com o dentista para evitar estes problemas ou consultá-lo se se desconfiar de algum problema deste tipo. Para mais informação, consultar Higiene Oral
  • Ajudar a pessoa a engolir. Tentar que a pessoa se sente o mais direito possível, com a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, durante a refeição e cerca de 30 minutos depois. Mexer gentilmente na garganta da pessoa, para a estimular a engolir, e ir verificando a boca para garantir que a comida é engolida e não fica a acumular-se na boca ou garganta. Se se estiver a alimentar a pessoa, ir alternando uma garfada de comida com um golo de um líquido; 
  • Ter cuidado com os líquidos. Servir mais bebidas frias do que quentes, pois são mais fáceis de engolir. Se a pessoa tossir ou se engasgar com frequência quando bebe líquidos, então oferecer líquidos mais espessos, como batidos (feitos de comidas nutritivas), iogurtes ou sumos naturais de fruta, ou utilizar um espessante na água e outras bebidas (como farinha de amido, um pouco de gelatina ou espessantes produzidos para o efeito). Numa fase mais avançada, não utilizar uma palhinha, pois pode dificultar engolir; em vez disso dar pequenos golos à pessoa utilizando uma caneca ou copo; 
  • Aprender a manobra de Heimlich. Esta é uma manobra muito utilizada quando uma pessoa está a asfixiar. Para saber mais em detalhe sobre esta manobra, consulte esta página do INEM sobre Obstrução da Via Aérea; 
  • Se a pessoa começar a desenvolver dificuldades em engolir, é essencial consultar-se o médico de família e um terapeuta da fala para perceber que estratégias mais específicas podem ser utilizadas com cada pessoa; 
  • Nas fases mais avançadas, é mais importante melhorar a qualidade de vida da pessoa do que garantir uma alimentação muito equilibrada. Por exemplo, se a pessoa quiser três sobremesas e não quiser vegetais, talvez se possa respeitar a sua vontade servindo fruta como sobremesa, que tem muitos dos nutrientes dos vegetais. 


Outras Dificuldades 

Existem também outras dificuldades, mais relacionadas com alterações do humor e comportamento, cujas origens e estratégias são discutidas no módulo das Alterações Psicológicas e de Comportamento, nomeadamente: 

 

Demonstração da Técnica da Palma com Palma - Alimentação [Vídeo]

Conteúdo atualizado a 5 de Dezembro de 2022