Adaptação do Ambiente
Numa condição como a demência, que afeta a capacidade da pessoa em recordar, planear e executar as suas tarefas diárias e em compreender e interpretar o que a rodeia, o papel do ambiente em que está inserida ganha particular importância.
O ambiente pode ter um impacto positivo ou negativo na qualidade de vida da pessoa com demência, influenciando a facilidade com que realiza as suas atividades de vida diária, a forma como se sente e lida com a doença e o nível de ligação que a pessoa mantém com a realidade e com a sua própria identidade.
Para além disso, devido às alterações do cérebro e do corpo provocadas pela doença, as pessoas com demência apresentam um risco mais elevado de se magoarem ou colocarem em perigo, o que compromete a sua segurança e a de terceiros.
ÍNDICE DE CONTEÚDOS:
Apesar das dificuldades variarem de pessoa para pessoa, existem algumas que se manifestam com maior frequência e que, por isso, são importantes conhecer para percebermos os obstáculos que a pessoa com demência tende a enfrentar no seu dia-a-dia.
Dificuldades de memória e aprendizagem podem fazer com que a pessoa:
Dificuldades de orientação podem fazer com que a pessoa:
Alterações da perceção dos sentidos podem fazer com que a pessoa:
Dificuldades de raciocínio, discernimento e resolução problemas podem fazer com que a pessoa:
Dificuldades de linguagem podem fazer com que a pessoa:
Dificuldades de coordenação e movimento podem fazer com que a pessoa:
Alterações psicológicas e de comportamento podem fazer com que a pessoa:
Consulte Alterações Psicológicas e de Comportamento para saber mais sobre as possíveis causas e as estratégias para lidar com este tipo de alterações.
Em simultâneo com estas dificuldades, provavelmente existirão também outras condições de saúde não relacionadas com a demência que poderão afetar a visão, audição, mobilidade, comportamento ou autonomia da pessoa com demência (por exemplo, problemas de anca, diabetes, insuficiência cardíaca ou cataratas).
Todas estas dificuldades e alterações interferem no bem-estar da pessoa com demência, mas podem ser minimizadas através de simples mudanças e adaptações no ambiente que tornam a vida diária da pessoa mais fácil.
Estas adaptações ajudam-na não só a manter a sua independência durante um maior período de tempo, como a reduzir a frustração e agitação e a mantê-la mais envolvida e ligada ao mundo exterior, melhorando assim a sua qualidade de vida. Para além disso, facilitam também a prestação de cuidados, diminuindo o desgaste dos cuidadores.
Um ambiente que contribua significativamente para a qualidade de vida da pessoa com demência deve:
- Ser familiar, confortável e seguro (de forma não intrusiva nem exagerada) e transmitir à pessoa uma sensação de segurança;
- Ser adaptado às dificuldades e necessidades específicas da pessoa;
- Favorecer a realização das suas tarefas diárias da forma mais autónoma possível;
- Encorajar a pessoa a realizar as suas atividades significativas;
- Fornecer auxiliares de memória e pistas que facilitem a orientação dentro de casa;
- Favorecer a participação social, promovendo a manutenção das relações com a família, amigos e comunidade;
- Promover a manutenção da identidade;
- Proporcionar uma estimulação equilibrada e controlada;
- Promover o sucesso, a autoestima e a confiança da pessoa.
Reduzir o risco de acontecerem situação perigosas, possibilitando que a pessoa se desloque e realize as suas atividades da forma mais autónoma possível.
O ambiente deve ser seguro e transmitir uma sensação de segurança, mas não de uma forma invasiva ou demasiado restritiva (por exemplo, amarrar a pessoa, colocar muitas barreiras ou fechar todas as portas de casa), pois isso poderá gerar sofrimento, frustração ou raiva na pessoa.
Perceber que mudanças podem ser feitas para reduzir os obstáculos à realização das atividades diárias da pessoa, tornando-a assim mais independente.
Ao favorecer que a pessoa execute as suas tarefas com sucesso, diminuiremos a possibilidade de ansiedade, frustração ou desistência.
As mudanças podem passar por reduzir o leque de escolhas (por exemplo, em vez de todas as camisolas, dar a escolher apenas entre três) ou tornar bem visíveis e destacados os objetos mais utilizados pela pessoa (colher, chaves, pente).
Proporcionar um ambiente que mantenha a pessoa envolvida e ligada ao mundo, mas que não seja demasiado estimulante ou intenso ao ponto de lhe provocar desconforto, agitação ou medo.
Devem ser reduzidos os estímulos que possam ser desestabilizadores, como o nível de ruído e de iluminação, e retirados os objetos que a pessoa possa interpretar como sendo ameaçadores, como uma máscara decorativa ou um animal empalhado.
O que se pretende é proporcionar uma estimulação útil que favoreça a orientação, a manutenção de identidade e o bem-estar, como por exemplo calendários, sinais e etiquetas, fotografias ou objetos significativos e familiares.
Antecipar as dificuldades que a pessoa poderá enfrentar no futuro, nos seus hábitos e rotinas, tendo o ambiente já adaptado ou pensado para quando essas necessidades surgirem (por exemplo, converter a banheira num polibã, antecipando as dificuldades em andar ou movimentar-se).
Facilitar o processo de prestação de cuidados, reduzindo possíveis focos de resistência, conflito e desgaste – alterar o ambiente é mais fácil que modificar o comportamento da pessoa com demência – e permitindo que os cuidadores vivam de forma mais tranquila, sem constante receio do que poderá acontecer.
Antes de serem feitas mudanças no ambiente da pessoa com demência, é importante ter em consideração alguns fatores úteis que poderão ditar a eficácia dessas alterações.
As pessoas com demência vivenciam a doença de forma diferente umas das outras, cada uma à sua maneira, e o que poderá ser útil para uma pessoa poderá não ser apropriado para outra.
Assim, as mudanças devem ser baseadas nas capacidades atuais da pessoa, nos problemas que enfrenta e nas suas necessidades individuais, para favorecer que leve uma vida que tenha valor e significado para si.
Antes de efetuar mudanças, é essencial refletir sobre como a pessoa poderá reagir a cada mudança. Por exemplo, podemos achar que é uma boa ideia substituir um telefone complicado por um telefone com poucos botões, mas a pessoa pode estar muito habituada ao telefone antigo e ter muitas dificuldades em aprender a utilizar o novo.
Da mesma forma, podemos reorganizar a cozinha de uma forma que achamos que é mais segura e funcional, mas essas alterações poderão fazer com que a pessoa fique mais insegura em cozinhar, pois a cozinha já não é tão familiar.
Algumas reflexões que podem ser feitas antes de discutir alterações com a pessoa são:
Sempre que as capacidades permitam, a pessoa deve ser incluída no processo de adaptação ambiental. Deve ser-lhe perguntado em que atividades precisa de ajuda, explicadas que mudanças estão a ser pensadas e os motivos para as fazer, pedida a sua opinião sobre o assunto e, se possível, oferecidas algumas escolhas, dando-lhe tempo para as fazer.
Este envolvimento nas decisões é particularmente relevante se as alterações pensadas restringirem, de algum modo, a liberdade da pessoa (por exemplo, acesso restrito a armários).
É importante perceber qual a melhor altura do dia para ter estas conversas, sendo aconselhado numa altura em que a pessoa esteja mais desperta e menos confusa, para que compreenda melhor o que está em causa.
As adaptações devem tornar o ambiente o mais seguro e estimulante, mas não é aconselhável que se façam mudanças significativas ao ponto de despersonalizar o ambiente que a pessoa conhece.
Pelo contrário, o ambiente deve permanecer o mais familiar possível e as mudanças devem ser feitas de forma gradual e sempre por motivos bem identificados.
Um ambiente que a pessoa não reconhece pode ter o efeito oposto ao pretendido, aumentando a sua confusão e agitação.
Uma vez que a demência faz com que as capacidades da pessoa se vão modificando ao longo do tempo, existirá sempre a necessidade de introduzir novas adaptações ou de rever e ajustar as existentes.
Por exemplo, numa fase mais inicial a pessoa poderá necessitar apenas de ser lembrada como funciona determinado eletrodoméstico, mas numa fase mais avançada poderá já ser incapaz de o utilizar corretamente, colocando-se em perigo.
Os equipamentos podem ajudar a pessoa a sentir-se mais segura e a ser mais independente, mas isso não invalida que a pessoa ainda precise de assistência para realizar as suas tarefas diárias.
Para além disso, os equipamentos não são a solução para todos os problemas e, por vezes, alterar a forma como as atividades são realizadas funcionará melhor para a pessoa com demência.
Para cada um dos desafios apresentados poderá ser necessário experimentarem-se algumas ideias antes de se encontrar a solução que melhor funcionará para a pessoa com demência e para os cuidadores.
Isto pressupõe não desesperar quando a primeira ideia não parece ajudar ou não insistir quando uma ideia que funcionava deixou de ter utilidade devido à evolução da doença.
Nesses momentos, é necessário procurar alternativas práticas, seja pesquisando em páginas web ou livros sobre demência, consultando técnicos especializados na área, procurando ajudas técnicas, pedindo sugestões a familiares e amigos ou juntando-se a grupos de apoio e/ou entre ajuda com outros cuidadores que enfrentam problemas semelhantes.
De seguida, apresentamos algumas estratégias para criar um ambiente adaptado às necessidades da pessoa com demência.
Cada secção apresenta dicas práticas para o fazer, sendo que uma se centra nos princípios transversais a toda a casa, enquanto as outras se focam no que adaptar em cada divisão específica.
Nem tudo o que aparece descrito servirá para todas as pessoas e todas as situações, mas certamente algumas ideias funcionarão e serão úteis.