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Síndrome do Pôr do Sol (Sundowning)


A Síndrome do Pôr do Sol (também conhecido por Sundowning ou por agitação ao final do dia) é um período de maior ansiedade, agitação e confusão que afeta as pessoas com demência ao final da tarde e início da noite. 

A pessoa pode estar a comportar-se de forma habitual durante a tarde e, ao final da tarde, com o pôr do sol, começar a comportar-se de uma forma bastante diferente. 

Esta síndrome pode incluir vários comportamentos. tais como:

  • Confusão;
  • Agitação e agressividade;
  • Quedas; 
  • Seguir ou chamar repetidamente o cuidador;
  • Caminhar sem parar;
  • Alterações repentinas de humor; 
  • Paranoia; 
  • Alucinações;
  • Acentuação de comportamentos já existentes.

Por vezes, o quadro de agitação e confusão continua durante a noite, tornando difícil que a pessoa com demência adormeça, por estar muito ansiosa ou preocupada e por ter dificuldades em permanecer deitada. 

Isso irá interferir no sono dos seus cuidadores, que dormirão poucas horas ou estarão sempre a acordar, o que os impossibilita de descansar e ter uma pausa na prestação de cuidados, contribuindo para um maior desgaste e sobrecarga. 

Este padrão de agravamento ao final do dia acontece mais frequentemente nas fases moderadas e avançadas da demência, e tende a durar alguns meses. 


O que provoca a síndrome do pôr do sol? 

Não se compreende bem o que provoca a síndrome do pôr do sol (ou Sundowning), mas acredita-se que essa agitação e confusão pode ser provocada por uma combinação de vários fatores. 

Uma das possibilidades apresentadas é que as alterações no cérebro provocadas pela demência interferem com o “relógio biológico” da pessoa (aquilo que nos diz quando devemos dormir), conduzindo a uma confusão no ciclo de sono e vigília. 

Outros possíveis fatores que se pensa poderem contribuir para a agitação no final do dia são: 

  • Noite e escuridão. Medo, ansiedade e diminuição da sensação de segurança que a noite e a escuridão trazem; 
  • Perda de rotina numa altura do dia em que, normalmente, a maioria das pessoas está muito ocupada e atarefada; 
  • Alterações de luz. As alterações de luz que acontecem ao final do dia podem perturbar ou confundir a pessoa. Isso inclui existirem mais sombras e reflexos nas janelas e persianas, que podem levar a erros de interpretação da pessoa com demência; 
  • Cansaço. É provável que a pessoa esteja mais cansada ao final do dia; 
  • Medicação. Os efeitos da medicação começarem a diminuir à medida que o dia chega ao fim. Outra hipótese é os efeitos secundários ou as interações entre medicamentos aumentarem a agitação e confusão; 
  • Locais não familiares. Por se tratar de um local que não conhece bem e, como tal não saber onde está, onde são as divisões ou onde estão os seus objetos, a pessoa com demência poderá ficar confusa, nervosa ou mesmo agressiva; 
  • Estímulos do ambiente. Poucos estímulos ou demasiados estímulos no ambiente da pessoa; 
  • Isolamento social. Falta de contacto com outras pessoas; 
  • Necessidades físicas não satisfeitas, como fome, sede, dor ou desconforto; 
  • Alterações de visão, audição ou de outros sentidos; 
  • Falta de sono ou sono de fraca qualidade (não reparador). 

A combinação destes fatores poderá ser diferente para cada pessoa com demência, e por isso é importante analisar cada situação e planear estratégias de intervenção de forma individualizada, tendo em consideração os padrões, preferências, medos e história de vida da pessoa com demência. 


O que fazer? 

  • Perceber se se trata de uma necessidade física. Por vezes podemos pensar que o comportamento se deve a uma agitação de final de dia, mas na verdade o que se passa é a pessoa querer apenas comunicar uma necessidade física, como fome, dor ou necessidade de ir à casa-de-banho, tal como faria em qualquer outra altura do dia. Deve sempre colocar-se esta possibilidade em primeiro lugar; 
  • Identificar a causa do comportamento da pessoa. Pode ser difícil perceber a causa de agitação da pessoa, mas se ouvirmos o que a pessoa está a dizer e observarmos o que está a fazer, isso poderá ajudar. Se percebermos o que está a acontecer, será mais fácil saber o que fazer para ajudar a reduzir a confusão e agitação da pessoa com demência. Por exemplo, a pessoa pode estar a ver alguém na sala, e isso poderá ser por um erro de interpretação causado por uma sombra provocada pelas alterações da luz. Nesse caso, se fecharmos os cortinados ou estores a perturbação poderá parar ou diminuir de intensidade; 
  • Avaliar o ambiente físico. Perceber se existe algo no ambiente que possa estar a provocar a agitação da pessoa. Houve alterações de luz que provocaram sombras? A divisão está muito escura ou, pelo contrário, com demasiada luz? Está muito ruído ou barulho? Estão muitas pessoas em casa ou naquela divisão? Se pensarmos que algum destes fatores pode estar a confundir ou agitar a pessoa, então devemos tentar alterá-lo e observar se a pessoa se acalma. Por exemplo, podemos fechar os cortinados ou estores, ligar mais luzes para diminuir as sombras das janelas, reduzir o barulho da televisão ou do rádio ou o número de pessoas que estão na divisão com a pessoa; 
  • Perceber os padrões do comportamento. Cada pessoa terá diferentes estímulos ou “gatilhos” que fazem desencadear os seus comportamentos de agitação ao final do dia. Para ajudar a identificar esses padrões, tentar anotar as circunstâncias em que acontecem esses comportamentos (horário, o que estava a fazer antes, quem estava na sala, entre outros), num caderno ou no telemóvel. Uma vez que se identifiquem padrões e “gatilhos” será mais fácil evitar os estímulos que promovem a agitação e confusão. Poderá também anotar esses comportamentos na secção de "Ocorrências" da Home360Appoiar. Para ter acesso a essa secção será necessário criar conta primeiro (ver "Criar Conta");
  • Ouvir calmamente as preocupações da pessoa e tentar reconfortá-la, transmitindo-lhe que se encontra em segurança; 
  • Utilizar contacto físico para tranquilizar a pessoa. Se a pessoa apreciar e for confortável para ela, o contacto físico pode ser uma boa estratégia para acalmar a pessoa. Por exemplo, segurar a sua mão, abraçá-la ou massajar gentilmente as suas costas; 
  • Redirecionar a atenção da pessoa para outro estímulo ou tarefa. Tentar direcionar a atenção da pessoa para uma tarefa, atividade ou objeto, como música, uma conversa ou alguma atividade que a pessoa aprecie. Por exemplo, oferecer-lhe uma bebida ou um aperitivo, pedir-lhe ajuda para fazer uma atividade (dobrar roupa, toalhas ou guardanapos tende a funcionar bem) ou ligar um programa de televisão que ela aprecie (mas não as notícias ou outros programas que possam ser perturbadores). Se for altura de jantar, podemos pedir ajuda para pôr a mesa ou começar logo a jantar. Dar um pequeno passeio também poderá ser uma estratégia útil. Se pensarmos que a agitação se relaciona com algum fator da divisão em que a pessoa está, sugerir que se vá para uma divisão diferente poderá ajudar a acalmar a pessoa; 
  • Controlar a luz. Ao final da tarde, antes do sol se pôr, fechar os cortinados ou estores e ligar as luzes poderá eliminar ou reduzir sombras, o que poderá diminuir os erros de interpretação e a confusão da pessoa com demência. Manter a casa bem iluminada, em especial durante os meses de Inverno, para que a pessoa veja bem o espaço onde está e se oriente melhor, também ajudará a que fique menos confusa. Ter uma luz de presença no quarto, corredor e casa-de-banho pode ajudar a reduzir alguma agitação resultante da casa estar escura e a pessoa não perceber onde se encontra; 
  • Garantir que a pessoa dorme bem durante a noite. Evitar ou reduzir o número de sestas durante o dia, manter a pessoa ativa, adaptar os hábitos de bebida e comida e outras estratégias que garantam que a pessoa descanse devidamente à noite, favorecendo os seus padrões de sono e vigília nos horários adequados. Para conhecer estas estratégias de forma mais aprofundada, consultar Alterações de Sono
  • Garantir uma exposição adequada à luz do sol, para favorecer a regulação e regularização dos ciclos de sono e vigília. Para tal, favorecer que a pessoa faça atividades no exterior durante o dia, se possível, sentar a pessoa perto de uma janela e garantir que os cortinados estão abertos e que não existem outros objetos a tapar a luz natural que entra pelas janelas; 
  • Criar e manter uma rotina consistente. Estruturar o dia, criando e mantendo uma rotina todos os dias fará com que a pessoa com demência saiba o que esperar, o que poderá ser reconfortante para ela e transmitir-lhe segurança, deixando-a mais calma; 
  • Favorecer a ocupação da pessoa durante o dia, em especial atividade ou exercício físico, que a fará despender energia e, desse modo, estar mais cansada ao final do dia e noite; 
  • Não fazer demasiadas atividades durante o dia, pois isso poderá provocar demasiado cansaço na pessoa, e a fadiga acentuada pode também provocar agitação; 
  • Promover atividades que a pessoa gosta de fazer, ao final da tarde, em especial atividades que sejam relaxantes e tranquilizadoras. Algumas atividades que se podem experimentar são ouvir música suave ou sons da natureza, ver fotografias, ver um filme favorito ou fazer festas num animal de estimação; 
  • Reduzir estímulos e atividades que possam agitar a pessoa, ao final da tarde. Reduzir o ruído de fundo, evitar que a pessoa veja imagens perturbadoras ou estimulantes na televisão, evitar ter muitas pessoas a conversar na mesma divisão, e evitar atividades que possam ser frustrantes e conduzir a irritabilidade ou confusão. Guardar essas atividades para o início do dia; 
  • Garantir que a casa é segura. Assegurar que a casa é segura para a pessoa circular caso esteja mais confusa ou agitada: acender as luzes nos corredores e casa-de-banho, ter uma luz de presença no quarto e retirar tudo o que possa fazer a pessoa tropeçar (como tapetes soltos, fios, cabos, sapatos, sacos ou mobiliário que esteja nas zonas de passagem). Retirar objetos potencialmente perigosos que possam servir como armas ou ser arremessados; 
  • Tentar que o cuidador preserve o seu próprio ciclo de sono. Se o cuidador não dormir e repousar convenientemente, também não conseguirá cuidar bem da pessoa com demência, pois ficará mais nervoso, com menos paciência e com mais dificuldades em se lembrar e em fazer todas as atividades diárias necessárias. Se a agitação da pessoa com demência estiver a impedir o cuidador de dormir, algumas estratégias que podem ajudar são: 
    • O cuidador pedir a alguém para dormir em sua casa, alguns dias da semana, para o aliviar das suas responsabilidades noturnas; 
    • O cuidador contratar um profissional para ficar consigo em casa, durante as horas de sono, para garantir que consegue dormir e, desse modo, preservar a sua saúde física e mental; 
    • Se for possível, o cuidador fazer pequenas sestas durante o dia, em momentos em que a pessoa com demência esteja a dormir ou mais calma. 
  • Consultar o médico que acompanha a pessoa, caso a agitação e confusão ao final do dia aconteça com frequência, para: 
    • O médico tentar perceber se existem causas médicas que estão a originar ou a agravar a agitação, tais como dor, infeções, alterações do sono ou efeitos ou interações da medicação; 
    • O médico alterar a medicação, a dosagem ou o horário de toma da medicação, por exemplo para que os efeitos se prolonguem mais para o final da tarde e noite; 
    • O médico avaliar a necessidade de prescrever alguma medicação para reduzir a ansiedade da pessoa e/ou ajudá-la a dormir à noite. Qualquer medicação deste tipo deve ser sempre discutida como médico, pois por vezes resolve o problema da agitação mas pode causar outros, como por exemplo a pessoa ficar mais sonolenta e mais propensa a quedas, ou ficar mais confusa de manhã, no dia seguinte. 

Conteúdo atualizado a 30 de Novembro de 2022