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Alucinações


Sintomas Psicóticos

As pessoas com demência apresentam, com frequência, alterações na forma como veem ou compreendem a realidade, alterações essas conhecidas como sintomas psicóticos.

Os sintomas psicóticos incluem: 

  • Delírios: ideias que não correspondem à realidade e em que a pessoa acredita (por exemplo, estar a ser roubada ou perseguida) e que não cedem à argumentação; 
  • Ilusões/Perceções erradas: a pessoa interpreta de forma errada algo que está a ver ou ouvir, e passa a acreditar que essa interpretação é verdade (por exemplo, ver um reflexo num vidro e achar que está uma pessoa dentro de casa). As ilusões ou erros de perceção são mais frequentes se também existirem alterações de visão, audição ou dos outros sentidos; 
  • Alucinações: experiências sensoriais falsas que ocorrem sem um estímulo real (por exemplo, ver um animal ou pessoa que mais ninguém vê ou ouvir vozes que mais ninguém ouve). As alucinações podem envolver a visão, a audição, o olfato, o paladar ou mesmo tato, por exemplo sentir algo a subir pelo braço quando não está lá nada. 

Os sintomas psicóticos variam em intensidade e ocorrem de forma intermitente, podendo desaparecer e voltar no futuro. Os delírios são os sintomas psicóticos mais frequentes, seguido das alucinações e das ilusões ou erros de perceção. 


Alucinações

As alucinações são perceções que ocorrem sem um estímulo real e que envolvem os sentidos (visão, audição, olfato, paladar ou tato). A pessoa pode ver a cara de um amigo antigo num cortinado, sentir um inseto a subir pelo braço, ouvir vozes de alguém a falar ou mesmo ficar a conversar com uma pessoa que só ela vê ou ouve. 

Algumas alucinações poderão ser inofensivas ou mesmo agradáveis, envolvendo visões de pessoas, situações ou objetos do passado; por exemplo, a pessoa pode ver um animal ou uma pessoa do seu passado. No entanto, outras alucinações poderão assustar ou perturbar a pessoa; por exemplo, a pessoa pode ouvir pessoas a gritar consigo, ver pessoas que estão atrás de si ou sentir insetos a andar na sua pele. 

As alucinações acontecem com maior frequência nalguns tipos de demência, como a Doença de Corpos de Lewy ou a Doença de Parkinson com Demência.


O que faz com que a pessoa tenha alucinações? 

  • Alterações no cérebro. As alucinações podem resultar de alterações no cérebro provocadas pela demência; 
  • Problemas físicos ou médicos. As alucinações também podem ser desencadeadas por descompensações relacionadas com outras doenças ou condições, como infeções urinárias e respiratórias, pneumonia, desidratação, dor intensa, ou quadros confusionais agudos, que acontecem muitas vezes quando uma pessoa com demência é internada no hospital; 
  • Doenças mentais. Outras doenças mentais que a pessoa tenha, para além da demência, também poderão causar alucinações; 
  • Consumo de substâncias. O consumo de álcool ou drogas pode também provocar alucinações; 
  • Efeitos da medicação. Os efeitos secundários de alguns medicamentos ou a interação entre medicamentos podem também gerar alucinações; 
  • Fadiga e falta de sono podem agravar a frequência e intensidade das alucinações. 


O que fazer? 

  • Perceber se a alucinação perturba ou não a pessoa. Nem todas as alucinações perturbam as pessoas com demência. Por exemplo, a pessoa pode estar a ter uma alucinação com um familiar já falecido, como a mãe, e essa alucinação trazer-lhe até algum conforto e segurança. Observar delírios e alucinações pode, por vezes, ser mais perturbador para os cuidadores do que para a pessoa com demência. Por isso, se as alucinações forem neutras e não causarem perturbação na pessoa nem puserem a segurança de ninguém em risco – ou mesmo se lhe causarem bem-estar –, então o melhor talvez seja não intervir; 
  • Evitar argumentar ou discutir com a pessoa, ou dizer-lhe para não ficar assustada. É importante recordar que a pessoa não está a fingir que vê ou ouve alguém, mas sim que são as alterações no cérebro que a fazem ter alucinações; 
  • Validar a experiência da pessoa, sem a confirmar ou desmentir. Falar com um tom de voz calmo, descontraído e reconfortante. Por exemplo, se a pessoa perguntar se vemos a pessoa que ele está a ver, podemos responder “Eu sei que tu a estás a ver, mas eu não consigo”. Dessa forma, não estamos a negar a experiência da pessoa, que ela está a ver ou ouvir alguém, evitando assim uma discussão ou que a pessoa fique ainda mais agitada; 
  • Pensar nas emoções associadas à alucinação e tentar perceber o que poderá a alucinação significar para aquela pessoa. Se compreendermos a emoção associada poderá ser mais fácil dar uma resposta que tranquilize a pessoa; 
  • Empatizar com as emoções da pessoa e transmitir-lhe conforto e segurança. Alguns exemplos de frases que podem ser ditas são: 
    • “Não te preocupes, eu estou aqui contigo, eu protejo-te.” 
    • “Lamento que isto seja tão assustador para ti. Respira fundo.” 
    • “Eu sei que isto é assustador para ti. Eu vou ajudar-te. Vamos acender as luzes todas e depois vamos comer um gelado, vais ver que nos vamos sentir melhor.” 
    • “Pareces-me assustada. Sabes o que faço quando estou assustada? Rezo uma oração (ou outra coisa que possa funcionar, como beber água ou respirar fundo). Queres rezar uma oração comigo?” 
  • Se a pessoa responder bem ao toque, dar-lhe um abraço, dar-lhe a mão ou massajar gentilmente as costas. Bater muito gentilmente na mão ou no braço pode direcionar a atenção da pessoa para nós e reduzir a força da alucinação; 
  • Proporcionar objetos de conforto. Existem objetos que proporcionam uma sensação de segurança à pessoa, tais como um cobertor, uma almofada, uma mala, uma fotografia, um peluche ou um objeto espiritual ou religioso, como um crucifixo. Ao darmos esse objeto à pessoa com demência, isso poderá ajudá-la a acalmar-se se tiver ficado agitada durante uma alucinação; 
  • Redirecionar a atenção da pessoa. Tentar direcionar a atenção da pessoa para uma tarefa ou atividade, como música, uma conversa ou alguma atividade que a pessoa aprecie. Sugerir que se vá para outra divisão por vezes também funciona – as alucinações tendem a diminuir de intensidade em locais com melhor iluminação e mais pessoas. Utilizar o humor também pode funcionar muito bem para aligeirar a situação e, ao mesmo tempo, distrair a pessoa. Por exemplo, se a pessoa estiver a ver um porco, podemos dizer: “Olha, quem me dera ter aqui um porco em casa! Punha-o já no espeto e tínhamos aqui refeição para três dias!”, e depois começar a falar de outro assunto. 
  • Remover objetos potencialmente perigosos. Remover do local onde a pessoa se encontra armas, facas ou quaisquer outros objetos que a pessoa possa utilizar para se defender de uma pessoa ou animal que acredita querer fazer-lhe mal; 
  • Consultar o médico da pessoa. Contactar o médico da pessoa e marcar uma consulta urgente para: 
    • Verificar a existência de sintomas físicos não tratados resultantes de condições como infeções, prisão de ventre, artrite ou outras doenças; 
    • Verificar se as alucinações podem estar a ser provocadas por consumo de álcool ou drogas; 
    • Explorar possíveis efeitos secundários e reações adversas a medicamentos ou a interações entre medicamentos; 
    • Averiguar se faz sentido a pessoa com demência tomar algum medicamento para reduzir as alucinações, caso estejam a colocar em causa a sua segurança ou a daqueles que a rodeiam. 

Conteúdo atualizado a 29 de Novembro de 2022