Tópico

Delírios, Suspeitas e Acusações


Sintomas Psicóticos

As pessoas com demência apresentam, com frequência, alterações na forma como veem ou compreendem a realidade, alterações essas conhecidas como sintomas psicóticos

Os sintomas psicóticos incluem: 

  • Delírios: ideias que não correspondem à realidade e em que a pessoa acredita (por exemplo, estar a ser roubada ou perseguida) e que não cedem à argumentação; 
  • Ilusões/Perceções erradas: a pessoa interpreta de forma errada algo que está a ver ou ouvir, e passa a acreditar que essa interpretação é verdade (por exemplo, ver um reflexo num vidro e achar que está uma pessoa dentro de casa). As ilusões ou erros de perceção são mais frequentes se também existirem alterações de visão, audição ou dos outros sentidos; 
  • Alucinações: experiências sensoriais falsas que ocorrem sem um estímulo real (por exemplo, ver um animal ou pessoa que mais ninguém vê ou ouvir vozes que mais ninguém ouve). As alucinações podem envolver a visão, a audição, o olfato, o paladar ou mesmo tato, por exemplo sentir algo a subir pelo braço quando não está lá nada. 

Os sintomas psicóticos variam em intensidade e ocorrem de forma intermitente, podendo desaparecer e voltar no futuro. Os delírios são os sintomas psicóticos mais frequentes, seguido das alucinações e das ilusões ou erros de perceção. 


Delírios, Suspeitas e Acusações

Uma pessoa com delírios, isto é, com ideias que não correspondem à realidade, pode tornar-se desconfiada das pessoas que a rodeiam, incluindo família, amigos e cuidadores, acusando-os de roubo, infidelidade ou de estarem mal-intencionados. 

Alguns delírios habituais são: 

  • A pessoa acreditar que alguém a está a roubar ou a quer roubar; 
  • A pessoa acreditar que o marido ou esposa estão a ser infiéis; 
  • A pessoa acreditar que o marido, esposa ou filhos não são quem dizem ser; 
  • A pessoa acreditar que alguém a quer apanhar ou magoar; 
  • A pessoa acreditar que os seus familiares a querem abandonar; 
  • A pessoa acreditar que a casa onde está não é a sua casa; 
  • Pensamentos ligado a crenças espirituais ou religiosas ou da cultura da pessoa (Deus, diabo, anjos, bruxarias, feitiços, entre outros); 
  • Ideias relacionadas com os problemas de memória. Por exemplo, a pessoa acreditar que tem que ir trabalhar (apesar de estar reformada há anos), que conduz sem dificuldades (apesar da licença lhe ter sido retirada) ou que precisa de ir cuidar dos filhos (que já são adultos). 

Os delírios, as suspeitas e as acusações podem ser bastante perturbadoras para os cuidadores, mas também para a própria pessoa com demência, que vivencia essas ideias de forma muito real. 

Apesar de ouvir este tipo de acusações ser algo que custa e magoa, é importante termos sempre presente que são as alterações associadas à doença que causam estes comportamentos e, como tal, tentar não os interpretar como direcionados a nós. 


O que faz com que a pessoa desenvolva delírios? 

  • Alterações no cérebro. Os delírios podem resultar de alterações no cérebro provocadas pela demência; 
  • Problemas físicos ou médicos. Os delírios também podem ser desencadeados por descompensações relacionadas com outras doenças ou condições, como infeções urinárias e respiratórias ou quadros confusionais agudos, que acontecem muitas vezes quando uma pessoa com demência é internada no hospital; 
  • Efeitos da medicação. Os efeitos secundários de alguns medicamentos ou a interação entre medicamentos podem gerar ideias que não correspondem à realidade; 
  • Alterações de memória e confusão. A incapacidade de se lembrar de informação, pessoas ou objetos pode conduzir a pessoa ter ideias que não correspondem à realidade. Por exemplo, a pessoa pode estar com receio de perder um objeto e guardá-lo bem demais. Mais tarde, como não se recorda que o guardou, andará à procura do objeto e não o descobrirá, começando a acreditar que alguém a roubou. Outro exemplo é a pessoa ter um momento em que não reconhece o seu cuidador (ou o seu próprio reflexo no espelho) e, como tal, acha que está um estranho dentro de casa que a pode querer roubar ou fazer mal; 
  • Memórias emocionalmente fortes do passado da pessoa podem voltar a manifestar-se como delírios ou alucinações. Experiências de abuso e violência, de acidentes traumáticos ou de perdas trágicas podem ser ativados por algum estímulo do ambiente e desencadear um delírio. A pessoa pode já ter dificuldades em separar o passado do presente e, como tal, reviver essas memórias como se estivessem a acontecer no momento. Por exemplo, alguém que esteve na guerra e, devido a um barulho mais alto pode achar que está de novo nesse cenário. Ou uma imagem de um funeral, na televisão, pode fazer com que a pessoa ache que está no funeral de um irmão seu que morreu há muitos anos e começar a chorar; 
  • Ilusões ou erros de perceção. Devido às alterações da perceção dos sentidos provocadas pela demência ou por dificuldades de visão e audição, a pessoa pode interpretar um qualquer estímulo no ambiente de forma errada, achando que se trata de outra coisa. Por exemplo, reflexos numa mesa de vidro ou sombras na parede podem fazer com que a pessoa acredite que está um animal dentro de casa que lhe pode fazer mal; 
  • Fadiga e falta de sono podem agravar a frequência e intensidade dos delírios. 


O que fazer? 

  • Verificar primeiro se a ideia é verdadeira. Por exemplo, se a pessoa disse que está a ser roubada, não devemos assumir logo que isso é mentira. Se possível, devemos tentar perceber se a ideia tem ou não algum fundamento de verdade, antes de assumirmos que se trata de um delírio; 
  • Perceber se o delírio perturba ou não a pessoa. Nem todos os delírios e alucinações perturbam as pessoas com demência. Por exemplo, a pessoa pode estar a ter uma alucinação com um familiar já falecido, como a mãe, e essa alucinação trazer-lhe até algum conforto e segurança. Observar delírios e alucinações pode, por vezes, ser mais perturbador para os cuidadores do que para a pessoa com demência. Por isso, se os delírios forem neutros e não causarem perturbação na pessoa, então talvez não seja necessário intervir; 
  • Tentar identificar a causa do delírio. Por exemplo, se a pessoa estiver a acusar alguém de a roubar, será porque ela se esqueceu de onde guardou os objetos? Ou se referir que estão insetos em casa, poderá ser porque interpretou de forma errada alguma sombra ou padrão? Por vezes, os delírios resultam de confusões entre o passado e o presente, por isso algumas ideias podem estar relacionadas com a história de vida da pessoa (por exemplo, um episódio em que lhe assaltaram a casa). O mais importante é tentar perceber o que perturba a pessoa e entender a realidade que ela está a viver no momento; 
  • Tentar não levar as acusações como uma ofensa. É importante termos sempre presente que os delírios estão, de uma ou outra forma, relacionados com a demência. A pessoa não está a levantar suspeitas ou a fazer acusações de propósito, mas sim devido à doença; 
  • Responder de forma simples e reconfortante. Falar devagar, num tom de voz calmo e tranquilizador, respondendo de forma simples, sem grandes explicações ou argumentos. Tentar reconfortar a pessoa e transmitir-lhe segurança, estabelecendo uma ligação emocional e respondendo ao sentimento associado ao delírio ou acusação. Por exemplo: “Eu sei que estás assustada, mas estou aqui para te ajudar e proteger. Vamos resolver isto juntos.”
  • Evitar argumentar, discutir ou corrigir a pessoa. Devemos deixar a pessoa expressar aquilo que está a vivenciar no momento e o que isso lhe provoca. Apesar dos delírios não serem verdadeiros, para a pessoa com demência são vivenciados como reais, pelo que recorrer à lógica não funcionará. Como tal, devemos evitar argumentar ou tentar corrigir e convencer a pessoa de que aquilo que está a viver não é verdade, pois isso poderá tornar a situação ainda pior, fazendo com que a pessoa fique humilhada, mais agitada ou mesmo agressiva. É importante compreender que as respostas de medo e raiva diminuem passado pouco tempo, se não existirem mais estímulos ou pensamentos que continuem a alimentá-las. As pessoas com demência muitas vezes esquecem-se de uma situação emocionalmente intensa se esta não for prolongada, repetida ou aumentada; 
  • Evitar linguagem corporal de conflito, como cruzar os braços, ficar diretamente à frente da pessoa ou muito próxima, ou fazer gestos rápidos ou agressivos. Se a pessoa reagir bem, tentar dar um abraço ou tocar-lhe gentilmente e de forma afetuosa, poderá acalmá-la; 
  • Redirecionar a atenção da pessoa para outro estímulo ou atividade. Tentar falar calmamente com a pessoa sobre estímulos concretos que existam à sua volta para ajudar a concentrar a sua atenção no presente. Por exemplo, descrever o tempo ou mesmo a divisão em que se encontra. Outra estratégia útil é proporcionar à pessoa uma atividade para fazer, em especial se for algo que ela aprecie, ou então pedir-lhe ajuda para realizar uma tarefa. Distrair com elogios também funciona muitas vezes. Por exemplo, elogiar a camisa ou alguma joia da pessoa e depois começar a fazer perguntas a partir daí, tais como se a camisola foi cara ou qual a cor favorita da pessoa; 
  • Remover objetos potencialmente perigosos. Remover do local onde a pessoa se encontra armas, facas ou quaisquer outros objetos que a pessoa possa utilizar para se defender de alguém que acredita querer fazer-lhe mal. Se a pessoa viver sozinha, este tipo de ideias de perseguição ou perigo podem significar que a pessoa precisa de mais apoio, pelo que poderá ser boa ideia arranjar ou contratar ajuda; 
  • Modificar o ambiente. Minimizar sombras, barulhos, objetos e artigos decorativos que possam ser assustadores ou perturbadores para a pessoa. Perceber ruídos que possam ser interpretados de forma errada pela pessoa, como ruído da televisão, do ar condicionado ou da ventoinha. Perceber se existem luzes que provocam sombras, reflexos ou distorções. Cobrir espelhos ou removê-los se, ao ver o seu próprio reflexo, a pessoa achar que se trata de um estranho e ficar agitada; 
  • Se a pessoa com demência estiver zangada e a acusar alguém de uma coisa que não é verdade, como estar a roubá-la ou a traí-la
    • Se a pessoa acredita que o seu dinheiro desapareceu, uma estratégia é deixá-la ter pequenas quantidade de dinheiro no bolso, na carteira ou na mala, para que ela possa verificar sempre que tiver essa ideia; 
    • Ajudá-la a procurar o que foi “roubado” e distraí-la subtilmente com outra atividade; 
    • Tentar perceber os locais onde pessoa costuma guardar os seus objetos e procurar nesses locais sempre que exista um objeto desaparecido ou “roubado”, ou direcionar subtilmente a pessoa com demência para esses locais quando ela anda à procura de algo que não sabe onde está; 
    • Ter duplicados de objetos que a pessoa procura com frequência, tais como carteira, chaves ou óculos. 
  • Se a pessoa com demência acreditar que tem que ir trabalhar ou que tem que ir tratar de uma responsabilidade que já não tem, como ir buscar os filhos à escola
    • Pensar em formas de adaptar os “papéis” de vida da pessoa. Se a pessoa sempre foi alguém que cuida dos outros, arranjar um animal de estimação ou um jardim para ela cuidar poderá satisfazer essa necessidade. Se for uma pessoa que sempre esteve habituada a mandar, deixá-la ser uma “diretora” das tarefas que sempre fez (como cozinhar ou arranjar coisas), dizendo aos outros o que fazer e como fazer, em vez de serem elas a fazer; 
    • Distrair a pessoa com a conversa. Por exemplo, se a pessoa disser que tem que ir trabalhar, fazer-lhe perguntas sobre o trabalho e, gradualmente, direcionar a conversa para um tópico relacionado mas que não tenha a ver com o trabalho em si, como um objeto. Se a pessoa trabalhava num escritório, podemos mudar o assunto para canetas, máquinas de escrever ou computadores; 
    • Redirecionar a pessoa para outra atividade. Por exemplo, pedir ajuda para fazer algo como mover uma mesa, dividir o correio, varrer o chão ou dobrar roupa; 
    • Reconfortar a pessoa entrando na realidade que ela está a vivenciar e fazendo um comentário que a tranquilize. Por exemplo, dizer à pessoa que “o escritório hoje está fechado” ou que “os filhos estão na escola”. No entanto, será necessário redirecionar logo a pessoa para outro assunto ou atividade, para evitar conflito. 
  • Se a pessoa acreditar que a sua esposa, marido ou cuidador é um impostor (não é quem diz ser, mas sim outra pessoa): 
    • Por vezes pode ajudar ter uma outra pessoa conhecida – como um vizinho ou um familiar – telefonar ou visitar para tranquilizar a pessoa e garantir-lhe que não se trata de um impostor; 
    • A pessoa com demência poderá precisar de passar algum tempo longe da pessoa que acredita ser um impostor. Por vezes, basta algum tempo para a pessoa se esquecer e o delírio passar. 
  • Consultar o médico da pessoa. Contactar o médico da pessoa e marcar uma consulta urgente para: 
    • Verificar a existência de sintomas físicos não tratados resultantes de condições como infeções, prisão de ventre, artrite ou outras doenças; 
    • Verificar se os delírios podem estar a ser causados por consumo de álcool ou drogas; 
    • Perceber se a pessoa tem problemas de visão, audição, tato ou olfato não diagnosticados, que podem estar a fazer com que interprete o ambiente de forma errada ou distorcida; 
    • Explorar possíveis efeitos secundários e reações adversas a medicamentos ou a interações entre medicamentos; 
    • Averiguar se faz sentido a pessoa com demência tomar algum medicamento para reduzir os delírios, caso estejam a colocar em causa a sua segurança ou a daqueles que a rodeiam. 
  • Obter apoio para o cuidador: 
    • Frequentar formações para cuidadores de pessoas com demência, para aumentar as competências, descobrir novas estratégias de lidar com estes comportamentos e encontrar outros cuidadores em situação semelhante, com quem partilhar sugestões e dificuldades; 
    • Contactar profissionais especializados em demência, como psicólogos, terapeutas ocupacionais ou enfermeiros, para aprender mais estratégias que possam funcionar na situação específica daquela pessoa com demência; 
    • Os delírios podem ser bastante perturbadores para os cuidadores, em especial se envolver acusações de roubo, infidelidade ou de serem impostores, ou se tiverem algum tipo de agressividade associada. Tirar algum tempo para partilhar os seus sentimentos e dificuldades com profissionais, familiares e amigos de confiança pode ajudar bastante a lidar com estas situações. 
    • Ponderar recorrer a apoio psicológico com um psicólogo. 

Conteúdo atualizado a 29 de Novembro de 2022