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Agressividade


As pessoas com demência podem por vezes comportar-se de forma agressiva, o que pode ser bastante perturbador para os seus familiares e cuidadores. A agressividade é um dos principais motivos que levam os cuidadores a decidir colocar a pessoa com demência num lar. 

A agressividade pode estar relacionada com a personalidade e comportamento da pessoa antes de ter demência mas, em muitos casos, pessoas que raramente foram agressivas ao longo da vida desenvolvem esse tipo de comportamentos após ter a doença. Entre outras causas, essa agressividade relaciona-se com alterações que a demência provoca na área frontal do cérebro, o que torna mais difícil para a pessoa controlar as suas emoções. 

Os comportamentos agressivos podem acontecer de forma repentina, sem aparente motivo, ou acontecer devido a uma situação frustrante que a pessoa com demência está a viver. 

Estes comportamentos podem ser: 

  • Verbais: como insultar, gritar ou fazer ameaças; 
  • Físicos: como bater, empurrar, beliscar, arranhar, morder, puxar o cabelo ou atirar objetos. 

A agressividade é, com bastante frequência, dirigida às pessoas mais próximas ou que mais tempo passam com a pessoa. Isso não significa que os sentimentos em relação a essas pessoas se tenham alterado, mas simplesmente que todos nós tendemos a “descarregar” as nossas frustrações e zangas em quem nos é mais próximo e familiar, e o mesmo se passa com a pessoa com demência, que a cada dia sente mais dificuldades, tristeza e frustração. 

Lidar com estes comportamentos é difícil e, muitas vezes, passa por experimentar diferentes estratégias mas, regra geral, quando a pessoa está agressiva é porque precisa de ser reconfortada e tranquilizada, mesmo que não o pareça. 


O que faz com que a pessoa seja agressiva? 

  • Apesar da agressividade ser uma das alterações de comportamentos mais difíceis de lidar, é importante ter noção que, na maior parte das vezes, a pessoa com demência não está a ser agressiva de propósito. O comportamento agressivo é habitualmente uma forma da pessoa expressar raiva, medo ou frustração e está muitas vezes relacionado com dor, desconforto ou alguma necessidade ou preocupação que a pessoa já não consegue satisfazer por si mesma ou comunicar de outro modo, devido às dificuldades provocadas pela demência; 
  • Dor ou desconforto. A pessoa pode estar a sentir dor ou desconforto – por exemplo, devido a uma infeção urinária ou respiratória, a prisão de ventre, a estar sentada na mesma posição durante muito tempo, ou ter fome ou sede, a ter as unhas demasiado grandes, a dores de dentes – e, devido à perda da capacidade, não ser capaz de o expressar normalmente e recorrer à agressividade; 
  • Efeitos da medicação. Os efeitos secundários de alguns medicamentos ou a interação entre medicamentos podem tornar a pessoa mais confusa e sonolenta, fazendo com que seja mais difícil para ela comunicar as suas necessidades; 
  • Alterações de visão e audição. A diminuição da visão ou audição da pessoa pode levá-la a interpretar o ambiente de forma errada, por exemplo, achando que algo que vê ou ouve é uma pessoa que está dentro da sua casa, o que a pode deixar agressiva;
  • Delírios ou alucinações. A pessoa pode estar a experienciar alucinações (ver, ouvir ou sentir coisas que não existem) ou delírios (ideias que não correspondem à realidade), que podem ser ameaçadoras e confusas, o que pode levar a pessoa a reagir de forma agressiva;
  • Alterações no cérebro. As alterações provocadas pela demência podem diminuir o autocontrolo da pessoa ou a capacidade de perceber que comportamentos são ou não adequados; 
  • Fadiga e alterações do sono. A pessoa pode não estar a dormir o suficiente e isso pode fazer com que tenha menos capacidade de controlo emocional e fique mais agressiva. Para mais informação, consultar Alterações do Sono;
  • Excesso de estímulos. O ambiente pode estar com demasiados estímulos em simultâneo para a capacidade da pessoa com demência, o que pode conduzir a uma sobrecarga e levá-la a ficar agressiva. Muitos objetos, barulho, sons altos, ou muitas pessoas perto da pessoa podem conduzir a esse comportamento. Para além disso, estímulos desconfortáveis do ambiente também podem fazer a pessoa reagir de forma agressiva, tais como demasiado frio, calor, luz ou escuridão; 
  • Comunicação dos cuidadores. A forma como os cuidadores comunicam e interagem com a pessoa com demência pode ser um fator que provoca agressividade. Por exemplo, se o cuidador fizer demasiadas perguntas ou der demasiadas instruções ou informação ao mesmo tempo, se o cuidador falar de forma ríspida ou se o cuidador se comportar de forma nervosa ou irritada, tudo isso poderá contribuir para que a pessoa com demência reaja de forma agressiva; 
  • Cuidadores profissionais. A pessoa pode não gostar ou confiar num determinado cuidador profissional, mesmo que não haja qualquer motivo para tal. Todos nós simpatizamos mais com algumas pessoas e ficamos um pouco mais irritados com outras, e as pessoas com demência são iguais. Pode também acontecer que haja demasiados cuidadores profissionais a cuidar da pessoa, todos com abordagens e hábitos diferentes, o que poderá ser confuso para a pessoa com demência; 
  • Falta de ocupação e socialização. Se a pessoa não tiver nada para fazer, nada que lhe dê um propósito, se não estiver em contacto com outras pessoas ou se, estando em contacto, não for incluída nas conversas ou atividades, ela poderá ficar aborrecida ou zangada e reagir agressivamente; 
  • Não ser incluída nas decisões. As outras pessoas podem achar que a pessoa com demência já não consegue fazer ou decidir as coisas por si própria e, como tal, deixá-la de fora das decisões sobre si mesma. Isso pode deixar a pessoa zangada e agressiva, por sentir que ninguém lhe pede a opinião ou que a sua opinião é ignorada; 
  • A pessoa pode estar frustrada por não conseguir fazer alguma tarefa que lhe é significativa ou que sempre fez, tal como escrever o nome, fazer um chá ou fazer a cama; 
  • A pessoa poderá querer esconder as suas dificuldades de outras pessoas, e se houver alguém ou alguma tarefa que possam revelar essas dificuldades, a pessoa poderá reagir de forma agressiva; 
  • A pessoa pode sentir que os seus direitos não estão a ser respeitados ou que a sua vontade está a ser ignorada. Isso pode acontecer por confusão ou dificuldades de memória ou de processamento da informação, mas também poderá ser verdade. Por exemplo, a pessoa pode sentir que a estão a impedir de fazer aquilo que ela quer e ficar agressiva; 
  • A pessoa pode interpretar de forma errada as intenções de quem cuida dela. Cuidados mais pessoais e íntimos como tomar banho, ajudar a ir à casa-de-banho ou vestir e despir podem ser perturbadores para a pessoa se não compreender o que se passa. Ela pode sentir esses cuidados como uma ameaça ao seu espaço pessoal ou mesmo uma agressão, achando que lhe estão a fazer mal. Para mais informação, consultar os módulos de Higiene e Cuidados Pessoais e Vestir e Despir;
  • A pessoa pode estar a vivenciar uma realidade diferente, devido às dificuldades em compreender o ambiente em que está. Por exemplo, se a pessoa acreditar que tem que ir buscar os seus filhos à escola, poderá reagir de forma agressiva se alguém a tentar impedir; 
  • A pessoa pode estar deprimida e isso fazer com que se torne mais sensível e reaja mais facilmente com agressividade. Para mais informação, consultar Depressão


O que fazer? 

  • Identificar a causa da agressividade ajudará a encontrar uma solução para eliminar ou reduzir esse comportamento. A pessoa está provavelmente a reagir a algo ou a tentar comunicar alguma necessidade. Devemos tentar ver a situação do ponto de vista da pessoa com demência e pensar naquilo que aconteceu imediatamente antes do comportamento agressivo, para percebermos o que o poderá ter desencadeado. Ter em mente toda a informação que possuímos sobre a pessoa, tal como personalidade, medos, preferências e história de vida poderá ajudar a identificar o motivo e a gerir o comportamento. Algumas questões a ponderar são: 
    • A pessoa parece estar com dores ou desconfortável (se tem expressões faciais de dor e se mexe numa parte do corpo em particular)? 
    • A pessoa estava a fazer alguma atividade ou tarefa? 
    • Alguém falou com a pessoa antes do comportamento? Se sim, falou de forma ríspida, acelerada ou infantil? 
    • A pessoa estava há muito tempo sozinha sem falar com ninguém ou fazer nada? 
    • A pessoa foi impedida de fazer algo que queria fazer? 
    • A pessoa foi forçada a fazer algo que não queria? 
    • O ambiente está com muito barulho, luz, desarrumação ou pessoas? 
    • A pessoa está com ideias que não correspondem à realidade? 
    • A pessoa parece estar a ver ou ouvir alguém que mais ninguém vê ou ouve? 
    • A pessoa dormiu pouco durante a noite? 
  • Pensar na emoção associada ao comportamento agressivo. A pessoa parece frustrada? Será que não está a perceber uma conversa e por isso sentiu-se envergonhada? Ou parece estar mais preocupada ou assustada com alguma coisa? Se compreendermos a emoção associada poderá ser mais fácil perceber qual o motivo da agressividade e acalmar a pessoa; 
  • Tentar não entrar em conflito. Apesar de ser difícil, é importante tentarmos não discutir com a pessoa, argumentar com ela ou expressarmos raiva ou irritação (verbal ou não-verbal), pois esse tipo de resposta só tornará a pessoa ainda mais agressiva. Não devemos encarar o comportamento como algo pessoal, como um ataque dirigido a nós, mas sim como uma forma da pessoa tentar comunicar uma necessidade ou preocupação. O importante é encorajar a pessoa a comunicar o que está a sentir e ouvirmos o que ela nos diz, para compreendermos a origem da agressividade; 
  • Falar de forma calma. Respirar fundo e falar devagar e de forma calma e clara, dando tempo à pessoa para responder. Evitar gritar, levantar a voz ou repetir aquilo que dizemos como forma de insistência nalguma explicação; 
  • Manter uma postura corporal aberta e não ameaçadora. Por exemplo, não cruzar os braços ou ter o corpo tenso e com uma postura de conflito. Uma estratégia muito útil é espelhar a postura corporal da pessoa – por exemplo, se a pessoa estiver sentada com os braços ao lado do corpo, fazermos o mesmo. Isso mostra à pessoa que estamos no mesmo registo dela e não contra ela; 
  • Utilizar o contacto físico com cautela. Tocar gentilmente na pessoa se apropriado e apenas se percebermos que está a reagir bem ao contacto físico, no momento. A não ser que seja absolutamente necessário, por uma questão de segurança imediata, evitar aproximar muito perto da pessoa, agarrá-la, conduzi-la para outro local ou aproximar por trás, pois é provável que esse tipo de comportamentos façam a pessoa ficar ainda mais agressiva por se sentir ameaçada; 
  • Tentar empatizar com aquilo que a pessoa está a sentir, reconhecendo esses sentimentos e proporcionando algum conforto. Por exemplo, podemos começar por dizer “Desculpa se isto está a ser frustrante para ti. Eu sei que é difícil”, e depois dizermos “Mas eu estou aqui para te ajudar no que for preciso”. Se a pessoa estiver zangada porque a estão a impedir de ir buscar os seus filhos à escola, podemos dizer-lhe que percebemos que ela quer cuidar dos filhos e reconfortá-la dizendo que eles estão em segurança; 
  • Fazer uma pausa. Se estiver a ser muito difícil lidar com o comportamento da pessoa no momento, e se não existir nenhum perigo imediato para ela ou para outros, o melhor a fazer poderá ser dar-lhe espaço, sair do local e voltar a tentar passados alguns minutos. Isso poderá ajudar a que a pessoa com demência e o cuidador se acalmem. Nesse tempo, pode-se ligar a um familiar, amigo ou vizinho para desabafar ou pedir ajuda; 
  • Redirecionar a atenção da pessoa para outra atividade. A agressividade pode ter sido desencadeada por alguma situação que esteja a acontecer, como por exemplo uma tarefa, atividade ou estímulo. Distrair a pessoa, mudando o foco de atenção para outra tarefa ou estímulo, pode ajudar a pessoa a acalmar-se, esquecendo-se porque estava zangada. Pode-se recorrer a atividades ou comidas que a pessoa goste, a objetos pessoais familiares que evoquem memórias positivas, ou mesmo pedir a um familiar ou vizinho que telefone para falar com a pessoa; 
  • Tentar uma atividade relaxante, como música, massajar ombros, mãos ou pescoço, exercício físico, contar histórias, recordar momentos importantes e positivos da história de vida da pessoa ou recorrer ao humor; 
  • Garantir a segurança. Garantir que a pessoa com demência, os cuidadores e as pessoas que a rodeiam se encontram em segurança. Se a pessoa não se acalmar e estiver a pôr-se a si própria ou a outros em risco, procurar assistência de terceiros; 
  • Se a pessoa estiver a ameaçar ou a ser fisicamente violenta (bater, empurrar, pontapear), devemos: 
    • Tentar não mostrar medo ou pânico, pois isso pode intensificar ainda mais a agressividade da pessoa; 
    • Afastarmo-nos e darmos espaço e tempo à pessoa para se acalmar; 
    • Ficar fora do alcance da pessoa e posicionarmo-nos perto de uma saída; 
    • Evitar espaços pequenos como a cozinha, a casa-de-banho ou o carro; 
    • Retirar objetos potencialmente perigosos que possam servir como armas ou ser arremessados; 
    • Se for necessário para garantir a nossa segurança, sair de casa e ir para casa de um vizinho ou para um sítio público; 
    • Telefonar para o 112 se sentirmos que nós ou outras pessoas estão em perigo iminente. Informar o operador do 112 do nosso nome e morada, explicando que a pessoa com o comportamento agressivo tem demência. Referir também se a pessoa está a utilizar alguma arma. 
  • Não culpar ou castigar a pessoa depois do comportamento ter parado. É muito provável que a pessoa não se recorde do que fez ou como agiu e, por isso, não só não aprenderá com o castigo, como também não compreenderá porque está a ser tratada de uma forma diferente e ríspida (o que pode gerar outro episódio de agressividade); 
  • Quando se está a apoiar a pessoa nalguma atividade de vida diária, aproximar-se dela pela sua frente e ao nível do seu olhar, explicando o que vai acontecer em frases curtas e breves. Por exemplo: “Agora eu vou ajudar-te a tirar o casaco”. Isso poderá evitar que a pessoa não compreenda o que está a acontecer e por isso se sinta atacada, o que desencadeará a agressividade como autodefesa; 
  • Simplificar o ambiente e as tarefas. Reduzir a desarrumação e a quantidade de objetos, o ruído (conversas, televisão, rádio) e, se possível, a intensidade da luz. Dividir as tarefas e atividades em pequenos passos que a pessoa tenha capacidade para executar, evitando assim que ela fique frustrada; 
  • Favorecer as rotinas. As pessoas com demência são muito sensíveis a mudanças no ambiente ou na rotina. Manter um ambiente calmo e familiar, no qual a pessoa segue uma rotina consistente e previsível pode ajudar a evitar episódios de agitação e agressividade; 
  • Consultar o médico da pessoa. Contactar o médico da pessoa e marcar uma consulta urgente para: 
    • Verificar a existência de sintomas físicos não tratados resultantes de condições como infeções, prisão de ventre, artrite ou outras doenças; 
    • Despistar outras alterações que por vezes ocorrem em pessoas com demência e que possam causar agressividade, tais como delírios, alucinações ou depressão; 
    • Explorar possíveis efeitos secundários e reações adversas a medicamentos ou a interações entre medicamentos; 
    • Averiguar se faz sentido a pessoa com demência tomar algum medicamento para reduzir a agressividade, caso isso seja necessário para garantir a segurança da própria pessoa e daqueles que a rodeiam. 
  • Obter apoio para o cuidador: 
    • Frequentar formações para cuidadores de pessoas com demência, para aumentar as competências, descobrir novas estratégias de lidar com estes comportamentos e encontrar outros cuidadores em situação semelhante, com quem partilhar sugestões e dificuldades; 
    • Contactar profissionais especializados em demência, como psicólogos, terapeutas ocupacionais ou enfermeiros, para aprender mais estratégias que possam funcionar na situação específica daquela pessoa com demência; 
    • Obter apoio médico, emocional, social e oportunidades de intervalos de prestação de cuidados, caso a agressividade seja intensa e frequente (ver Descanso do Cuidador);
    • Tirar algum tempo para partilhar os seus sentimentos e dificuldades com profissionais, familiares e amigos de confiança; 
    • Ponderar recorrer a apoio psicológico com um psicólogo. 

Conteúdo atualizado a 29 de Novembro de 2022