Tópico

Gritar e Fazer Sons


Algumas pessoas com demência poderão gritar ou produzir sons contínuos ou intermitentes, por vezes muito alto, o que pode ser perturbador ou irritante para os seus cuidadores. 

Estes comportamentos vocais podem incluir: 

  • Gritos; 
  • Gemidos, suspiros; 
  • Chamadas de atenção constantes; 
  • Cânticos; 
  • Sons atípicos, como grunhidos. 

À medida que a demência progride e que o funcionamento do cérebro vai ficando cada vez mais afetado, este tipo de vocalizações e chamamentos tende a ocorrer com maior frequência, pois a pessoa tem cada vez mais dificuldades em comunicar e se expressar. 

Estes comportamentos podem acentuar-se ao final da tarde ou início da noite, associados à Síndrome do Pôr-do-Sol (Sundowning)


O que faz com que a pessoa grite, gema ou faça outros sons? 

  • Dor ou desconforto. A pessoa pode estar a sentir dor ou desconforto, provocado por alguma condição (por exemplo, prisão de ventre, dores de dentes ou desconforto por se ter urinado) ou durante atividade de vida diária tais como ir à casa-de-banho ou tomar banho (por exemplo, quando alguém tenta ajudar e pega nalgum local do corpo da pessoa no qual ela tem mais dores ou sensibilidade); 
  • Necessidade física. A pessoa está a tentar expressar uma necessidade física, como ter fome, sede ou vontade de ir à casa-de-banho e não o consegue fazer de outra forma; 
  • Estímulos ambientais. Estes comportamentos podem também ser desencadeados por estímulos do ambiente onde a pessoa está inserida, seja por aborrecimento e falta de ocupação ou por conversas, imagens ou objetos que lhe gerem medo ou preocupação. Pode também estar a reagir a um ambiente com um excesso de estímulos desconfortáveis, como demasiado barulho, demasiado calor ou frio, demasiada luz ou escuridão; 
  • Dificuldade em perceber o que se passa. A pessoa pode gritar ou gemer por não compreender o que lhe está a acontecer. Por exemplo, se alguém estiver a ajudar a pessoa a vestir-se ou despir-se e não explicar o que está a acontecer, ela poderá não compreender o motivo de lhe estarem a mexer e começar a gritar; 
  • Alucinações ou ilusõesA pessoa pode estar a vivenciar uma alucinação ou ilusão e os gritos e sons podem ser uma reação a isso;
  • Ansiedade. A pessoa pode estar a sentir-se ansiosa e preocupada com algo que esteja prestes a acontecer, que esteja planeado ou que esperem dela, e fazer sons como forma de expressar e lidar com essa ansiedade; 
  • Incapacidade de falar. A pessoa pode ter já muita dificuldade em articular frases e, como tal, fazer sons ou gritar palavras isoladas como forma de expressar algo que pretende ou de chamar alguém; 
  • Mudanças. A pessoa pode estar a reagir a uma mudança de ambiente ou de rotina; 
  • Problemas de visão e audição. Uma pessoa com demência que tenha mais dificuldades de visão e audição ficará mais isolada do mundo exterior, o que fará com que fique ainda mais confusa. Essa confusão pode gerar-lhe pânico, por não saber o local onde se encontra ou o que está a acontecer, fazendo com que solte gritos ou outros sons de pânico.


O que fazer? 

  • Identificar a emoção associada ao som que a pessoa com demência está a fazer, para compreender qual a necessidade que quer expressar. Parece um gemido ou grito de dor? Ou parece mais um grito de alguém que está assustado ou zangado? O som que fez é semelhante a quando estamos a tentar chamar alguém? Ou os sons que está a fazer parecem mais de preocupação, como se não soubesse o que fazer ou como resolver um problema? Ou mais de choro, como se estivesse muito triste e desesperado?; 
  • Tentar perceber se a pessoa com demência está a sentir dor ou desconforto. Por exemplo, perceber se tem fome ou sede, se se urinou, se está mal sentada ou deitada ou se tem alguma dor. Muitas vezes, quando as pessoas com demência sentem dor, para além de gritar também tocam na parte do corpo que lhes dói. Estar atentos a esses sinais não verbais pode ser útil; 
  • Tentar perceber se o ambiente poderá estar a causar mal-estar à pessoa. Identificar potenciais estímulos que causem desconforto, como demasiado ruído ou calor, ou alguma pessoa específica, e remover ou corrigir esses estímulos; 
  • Perceber se o ambiente não está a ser capaz de responder às necessidades da pessoa. Por exemplo, a pessoa pode não ser capaz de encontrar a casa-de-banho, ou uma má iluminação pode estar a gerar sombras, o que por sua vez pode aumentar a confusão da pessoa com demência. Alguns auxiliares de orientação podem ajudar a pessoa a perceber onde são as divisões ou onde está algum objeto que procura, tranquilizando-a;
  • Se prestarmos apoio à pessoa nas atividades básicas de vida diária, como vestir e despir ou tomar banho, explicar de forma clara aquilo que vamos e estamos a fazer. Por exemplo, explicar que agora vamos ajudá-la a despir a camisola para depois ir para o banho. Dar tempo à pessoa para compreender aquilo que está a ser dito antes de avançar para a ação; 
  • Perceber se os gritos ou gemidos acontecem quando estamos a mexer na pessoa e, caso aconteçam, se existe alguma zona em particular na qual toquemos que faça a pessoa gritar. Se assim for, a pessoa poderá estar com algum problema muscular ou articular; 
  • Proporcionar ocupação e contacto social apropriado. Garantir que a pessoa com demência passa algum do seu tempo em contacto com outras pessoas, que tem algo para fazer e que recebe estímulos sensoriais positivos (tais como odores associados a certas memórias, músicas favoritas ou objetos com os quais possa interagir); 
  • Conversar com a pessoa e favorecer que ela expresse as suas emoções e sentimentos – como raiva, frustração ou o luto pela perda de capacidades – poderá fazer com que gritos e outros sons aconteçam com menor frequência; 
  • Utilizar técnicas de relaxamento, como respirar fundo e devagar, pode acalmar um pouco a pessoa, se ela estiver visivelmente nervosa e ansiosa;
  • Se existirem problemas de visão ou audição, perceber se existem óculos ou aparelhos auditivos que os possam melhorar. Caso já existam, garantir que os óculos estão limpos e que os aparelhos auditivos estão a funcionar devidamente e que ambos estão adaptados às capacidades atuais da pessoa; 
  • Frequentar formações para cuidadores de pessoas com demência, para aumentar as competências, descobrir novas estratégias de lidar com estes comportamentos e encontrar outros cuidadores em situação semelhante, com quem partilhar sugestões e dificuldades; 
  • Consultar o médico que acompanha a pessoa com demência para: 
    • Verificar a existência de sintomas físicos não tratados resultantes de condições como infeções, prisão de ventre, artrite ou outras doenças; 
    • Despistar outras alterações que por vezes ocorrem em pessoas com demência e que possam causar vocalizações, tais como delírios, alucinações ou depressão; 
    • Investigar possíveis efeitos secundários e reações adversas a medicamentos ou a interações entre medicamentos. 

Conteúdo atualizado a 29 de Novembro de 2022