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Comportamentos Repetitivos


Por vezes as pessoas com demência fazem ou dizem algo de forma repetida e constante. Alguns comportamentos repetitivos frequentes são: 

  • Repetir perguntas, frases ou palavras; 
  • Verificar fechaduras, portas ou persianas; 
  • Completar algo e desfazer logo a seguir (como fazer e desfazer a mala, ou arrumar uma gaveta e desarrumá-la de seguida); 
  • Contar ou organizar objetos; 
  • Ter padrões rígidos na forma de andar, incluindo o ritmo; 
  • Ir à casa-de-banho com muita frequência. 

Apesar deste tipo de comportamento ser quase sempre inofensivo para a pessoa com demência, tem o potencial de causar irritação e desgaste no cuidador. No entanto, pode também ser uma situação frustrante para a pessoa com demência, especialmente se as suas perguntas não tiverem uma resposta, o que a pode deixar insegura e ansiosa. 


O que faz com que a pessoa tenha comportamentos repetitivos? 

  • Necessidade de conforto. A pessoa pode estar a repetir-se por se sentir ansiosa, insegura ou assustada, e como tal precisar de conforto, segurança e familiaridade. Muitas vezes, quando uma pessoa com demência repete a mesma pergunta, não é tanto para obter informação, mas mais para se tranquilizar em relação a alguma preocupação específica. Por exemplo, se a pessoa pergunta várias vezes que dia é, pode ser porque precisa de ser tranquilizada de que não se esqueceu de algo importante, mais do que saber que é segunda ou terça-feira. Para além disso, fazer atividades ou tarefas repetitivas pode ser apaziguador para a pessoa, ajudando-a a reduzir a ansiedade; 
  • Dificuldades em perceber o que se passa. Devido às alterações no cérebro, a pessoa pode estar confusa e com dificuldades em perceber onde está ou o que está a acontecer à sua volta, e como tal tentar perceber o que se passa através de perguntas exploratórias; 
  • Dificuldades de memória. A repetição também pode ser uma consequência da perda de memória, da pessoa não se recordar daquilo que fez ou disse, ou da resposta que recebeu à pergunta que colocou. Isso pode levá-la a fazer novamente uma pergunta ou a repetir uma atividade que acabou de fazer (como lavar a loiça); 
  • Perda e necessidade de controlo. Ter uma demência significa perdermos, continuamente, partes da própria vida: a perda de memória, de relações, de rendimentos, de capacidades, de papéis sociais ou da perspetiva de futuro. É difícil lidar com todas essas perdas e com as inseguranças associadas. Como tal, fazer uma atividade em que a pessoa sabe exatamente o que tem de fazer pode dar-lhe um sentimento de propósito e de controlo sobre a sua própria vida (especialmente se for uma atividade que considera importante, como dobrar a roupa), e isso poderá tranquilizá-la; 
  • Tentativa de manter a identidade. Ao afetar a memória da pessoa, a demência ameaça o seu sentido de identidade. Com a progressão da doença, as pessoas com demência poderão ter cada vez mais receio de deixar de saber quem são e, como tal, perguntarem ou repetirem várias vezes alguma informação sobre si próprias – como por exemplo repetir o nome completo, o nome dos pais, o local ou a data de nascimento – numa tentativa de não perderem quem foram e quem são; 
  • Estímulos ambientais. Estes comportamentos podem também ser desencadeados por estímulos do ambiente onde a pessoa está inserida, seja por aborrecimento e falta de ocupação ou por conversas, imagens ou objetos que lhe gerem medo ou preocupação. Por exemplo, uma conversa sobre ir ao médico pode causar alguma preocupação na pessoa sobre a possibilidade de se esquecer da consulta, e fazê-la perguntar repetidamente quando é a consulta; 
  • Necessidades físicas. As perguntas e comportamentos repetitivos podem também acontecer porque a pessoa quer comunicar uma necessidade física, como ter fome, sede ou querer ir à casa-de-banho e já não ter capacidade para a expressar de outra forma. Por exemplo, se a pessoa disser “calças” repetidamente, poderá querer comunicar que se urinou e está desconfortável. 


O que fazer? 

  • Avaliar se o comportamento é realmente um problema. Se a repetição de perguntas ou atividades não puserem em risco a segurança da pessoa, talvez não seja necessário interferir com o comportamento da pessoa e simplesmente aceitá-lo. Esse comportamento pode até estar a ser tranquilizador para a pessoa e a evitar que ela fique ainda mais agitada ou agressiva. E, se não existir risco de segurança, a não interferência pode evitar um conflito desnecessário; 
  • Ser paciente e sensível. É importante ter presente que a pessoa não está a repetir perguntas ou atividades de propósito ou para nos irritar, mas sim para dar resposta a uma necessidade ou preocupação. Como tal, é importante sermos pacientes e utilizarmos um tom assertivo ao falar com a pessoa, e evitar um tom aborrecido, ríspido ou sarcástico, pois isso poderá gerar um comportamento defensivo ou mesmo agressivo na pessoa. Devemos também evitar utilizar a lógica ou dizer-lhe que já fez aquela pergunta ou que nós já lhe demos a resposta, porque ela não se recorda que o fez e porque pode aperceber-se da nossa falta de paciência, o que pode perturbá-la mais; 
  • Proporcionar um clima de conforto e segurança, que tranquilize a pessoa, através de palavras e do toque, se isso for confortável para ela. Podemos, por exemplo, dizer à pessoa, num tom gentil, que não tem de se preocupar com determinada consulta porque já está tudo tratado. Uma boa estratégia é recorrer ao humor, se percebermos que a pessoa responde bem ao mesmo, o que pode aliviar um pouco a tensão e preocupação da pessoa; 
  • Focar a emoção e não o comportamento. Em vez de reagirmos ao que a pessoa está a fazer, devemos pensar o que poderá estar a pessoa a sentir para se comportar daquela forma; 
  • Perceber o motivo por detrás da repetição. Tentar compreender a necessidade ou preocupação que a pessoa não está a ser capaz de expressar. A pessoa está confusa ou sente-se insegura? Tem fome ou sente necessidade de ir à casa-de-banho? Estará aborrecida por não estar ocupada? A repetição ocorre perto de certas pessoas ou ambientes, ou numa altura específica do dia? Existe algum tema comum às questões, como por exemplo, a pessoa acreditar que está perdida ou que precisa de ir trabalhar? Identificar a emoção ou sentimento que está a ser expresso pela pessoa pode ajudar a perceber o motivo. Por exemplo, se a pessoa com demência repetir a pergunta “O que é que vou fazer hoje?”, isso pode significar que a pessoa se sente perdida. Dar resposta a esse sentimento de incerteza, transmitindo segurança e conforto, ajudará a pessoa a tranquilizar-se e o comportamento a diminuir; 
  • Retirar objetos ou estímulos do meio ambiente que possam desencadear o comportamento. Por exemplo, esconder escadotes e ferramentas que podem levar a pessoa a lembrar-se de fazer uma tarefa que sempre fez ou achar que tem de ir trabalhar quando já não o faz. Ou, sempre que a pessoa vê uma peça de roupa, pensar que pode ser necessário lavar a roupa. No entanto, por vezes a pessoa procura esses objetos, por serem significativos para ela, e só se acalmará quando os encontrar. Nesses casos, é melhor não se retirar os objetos, para evitar que a pessoa fique agitada ou agressiva quando anda à sua procura e não os encontra, devendo utilizar-se outras estratégias; 
  • Limitar a quantidade de informação que fornece à pessoa se o excesso de informação lhe costuma causar preocupação. Por exemplo, pode ser conveniente esperar para falar à pessoa sobre uma consulta médica até que seja quase altura de sair; 
  • Dar uma resposta à pessoa. Se a pessoa fizer a mesma pergunta várias vezes, é aconselhável que se dê à pessoa a resposta que ela procura. Se ignorarmos a pergunta, isso fará com que a pessoa fique ainda mais ansiosa e perturbada; 
  • Utilizar auxiliares de memória e orientação. Para diminuir o desgaste do cuidador que está  sempre a responder às mesmas perguntas, e se a pessoa ainda tiver capacidade de ler e compreender o que está escrito, uma estratégia que poderá ser útil é recorrer a auxiliares de memória, tais como quadros de parede, blocos de notas, post-its, relógios, calendários ou fotografias; 
  • Colocar num local bastante visível essa informação relevante que responde às dúvidas da pessoa e depois incentivar a que a pessoa olhe para lá. Isso poderá reduzir o número de vezes que a pessoa faz as perguntas. No entanto, é importante perceber se isso vai realmente ao encontro das necessidades da pessoa, ou se apenas responde à informação que a pessoa procura mas não ao sentimento, necessidade ou preocupação associada. Para mais informação, consultar Auxiliares de Memória;
  • Redirecionar a atenção da pessoa para outra tarefa. Por exemplo, comida, um passeio, fazer a atividade favorita ou uma atividade que aprecie, cantar, pedirmos à pessoa que nos ajude ou nos ensine a fazer uma tarefa, ou conversar com a pessoa sobre um tema do seu interesse ou da sua história de vida, tal como uma época específica ou um acontecimento que ela apreciou; 
  • Transformar a ação ou comportamento numa atividade. Quando a pessoa com demência repete uma ação, tal como fazer uma mala ou dobrar lençóis, isso poderá estar relacionado com um trabalho ou passatempo do seu passado. Tentar converter essa ação numa atividade pode ajudar a pessoa e fazê-la sentir-se bem. Por exemplo, alguém que tenha trabalhado como empregado doméstico pode ser encorajado a ajudar com a loiça ou trabalhos de limpeza; 
  • Mesmo que a ação não esteja relacionada com a sua história de vida, convertê-la numa atividade e dar algo à pessoa para fazer com as mãos pode ser útil na mesma na redução dos movimentos repetitivos. Pode ser pedindo para ela ajudar em tarefas diárias simples como dobrar roupa, varrer o chão ou limpar o pó; através de atividades manuais e expressivas como desenhar, colocar contas num fio para fazer um colar, fazer uma colagem; ou através de objetos, como por exemplo dando uma bola macia para a pessoa apertar, ou separar objetos por cor, forma ou tipo, como cartas de jogar, meias ou molas da roupa (se não existir perigo da pessoa confundir as molas com comida e tentar ingeri-las); 
  • Promover atividade física regular. A atividade física pode ajudar a pessoa a libertar energia e ansiedade, reduzindo os comportamentos repetitivos. 

Conteúdo atualizado a 29 de Novembro de 2022