Tópico

Ansiedade e Agitação


A ansiedade é causada pelo medo ou pensamento de que algo de negativo vai acontecer. Todas as pessoas se sentem ansiosas de tempos a tempos e, para a maioria, a ansiedade desaparece uma vez que deixam de se sentir em perigo ou ameaçadas. 

No entanto, pode ser muito difícil para uma pessoa ansiosa deixar de pensar e sentir que algo de negativo ou prejudicial vai acontecer, e isso pode ter um grande impacto na sua vida diária. 

É bastante comum que as pessoas com demência sintam ansiedade, o que pode fazer com que as dificuldades provocadas pela demência se agravem (particularmente ao nível da atenção, da capacidade de organização e planeamento e da tomada de decisão) e que a pessoa fique agitada, desenvolvendo comportamentos perturbadores que, para os outros, parecem não ter um motivo lógico. 

Os sintomas da ansiedade podem incluir: 

  • Pensamentos marcados por preocupação, angústia e apreensão, medo excessivo relacionado com a sua saúde e futuro, e incapacidade de se tranquilizar; 
  • Agitação psicomotora e comportamentos como a pessoa estar constantemente alerta e a vigiar tudo, evitar situações ou pessoas específicas, esfregar e mexer constantemente nas mãos ou em objetos, procurar, esconder e acumular objetos, caminhar constantemente, gritar e fazer sons ou fazer perguntas, pedidos ou ações repetitivas; 
  • Medo de abandono, necessitando a pessoa de ser constantemente tranquilizada de que não será abandonada, nunca querendo ficar sozinha e seguindo o cuidador para todo o lado ou chamando-o sempre que não o vê; 
  • Cansaço, irritabilidade e dificuldades de concentração (distraindo-se com maior facilidade); 
  • Sintomas físicos como batimentos cardíacos acelerados ou irregulares (palpitações), pressão arterial elevada, maior sudação, falta de ar, tonturas, náuseas, diarreia, tensão muscular, fadiga, dores de cabeça e dificuldades em dormir. 

A ansiedade é frequente em fases iniciais da demência – quando as pessoas ainda mantêm bastante consciência da sua situação e dificuldades, o que lhes gera maiores preocupações quanto ao presente e ao futuro –, podendo agravar-se com a progressão da doença, e tendendo a diminuir nas fases mais avançadas. 

A ansiedade varia também com o tipo de demência, parecendo ser mais frequente na Demência Vascular e na Demência Fronto-Temporal, e pode acentuar-se ao final da tarde e início da noite, relacionando-se com o Síndrome do Pôr do Sol (Sundowning).

 

O que pode provocar ansiedade? 

  • Alterações no cérebro. Alterações nas áreas frontais e temporais do cérebro, áreas essas que, entre outras funções, regulam as nossas emoções e a capacidade de lidarmos e gerirmos os estímulos e a nova informação que recebemos; 
  • Consciência das dificuldades, insegurança e medo de falhar. As pessoas numa fase inicial da demência têm, modo geral, maior consciência e noção das suas dificuldades. Como tal, poderão ficar mais inseguras sobre as suas capacidades, ficando com medo de dizer ou fazer alguma coisa errada e que as envergonhe, ou mesmo de tentar executar atividades simples que sempre fizeram. Muitas vezes, esse sentimento de insegurança faz com que a pessoa com demência defina alguém – normalmente o cuidador mais presente – como a sua “referência”, ou seja, como aquela pessoa a quem recorrer sempre que for preciso algo. Quanto mais ansiosa e insegura estiver, mais necessidade terá de estar perto da sua pessoa de referência, aquela que poderá resolver os seus problemas e satisfazer as suas necessidades, o que fará com que a siga, a chame repetidamente, lhe faça várias perguntas e fique agitada e impaciente se o cuidador a ignorar ou não estiver perto dela; 
  • Perda e necessidade de controlo. Ter uma demência significa perdermos, continuamente, partes da própria vida: a perda de memória, de relações, de rendimentos, de capacidades, de papéis sociais ou da perspetiva de futuro. Todo esse sentimento de perda de controlo da sua própria vida gera preocupação na pessoa e a antecipação de um futuro muito negativo, deixando-a nervosa e apreensiva ou levando-a a desenvolver comportamentos que a façam sentir mais em controlo; 
  • Estímulos ambientais. A ansiedade pode também ser desencadeada por estímulos do ambiente onde a pessoa está inserida, seja por falta de ocupação, por estar isolada e sem contacto social com outras pessoas, ou por estar a reagir a um ambiente com um excesso de estímulos desconfortáveis, como demasiado barulho, demasiado calor ou frio, demasiada luz ou escuridão ou demasiadas pessoas. A ansiedade pode também ser causada por interações de outros com a pessoa com demência, como por exemplo: se a pessoa for apressada quando está a fazer uma tarefa; se lhe pedirem para fazer uma tarefa que a pessoa já não tem capacidade de realizar (o que gera frustração ou ansiedade por antecipar a sua incapacidade); ou se lhe fizerem perguntas sucessivas sobre informação que ela já não é capaz de recordar; 
  • Mudanças. A pessoa pode estar a reagir a uma mudança de ambiente ou de rotina, por exemplo, devido a uma viagem para algum local, a um internamento no hospital ou mesmo pela presença de visitas não habituais em sua casa; 
  • Desorientação e confusão. À medida que a demência progride e a pessoa perde capacidades, será para ela cada vez mais difícil interpretar o ambiente, perceber onde está e o que é suposto estar a fazer, tornando tudo menos familiar. Essa crescente desorientação e a tentativa de perceber o que a rodeia, num mundo que é cada vez menos familiar para si, poderá causar-lhe ansiedade; 
  • Necessidades físicas não satisfeitas, como fome, sede, dor ou desconforto (por exemplo, necessidade de ir à casa-de-banho, dores de dentes ou prisão de ventre), as quais a pessoa já não tem capacidade para comunicar diretamente, ou que quer tentar satisfazer mas não sabe como, o que a deixará nervosa e agitada; 
  • Efeitos da medicação. Os efeitos secundários de alguns medicamentos ou a interação entre medicamentos podem gerar ansiedade na pessoa ou acentuar a ansiedade já existente. 

Para saber motivos mais específicos de comportamentos que podem estar relacionados com a ansiedade, consultar: 


O que fazer? 

  • Identificar a causa da ansiedade para ajudar a eliminá-la ou reduzi-la. A pessoa estava a fazer ou ia fazer alguma tarefa quando ficou mais ansiosa? Que tarefa era? Poderá ter ficado frustrada ou com medo de errar? O ambiente está com muito barulho, luz, desarrumação ou pessoas? Será que a pessoa está desconfortável e já tem dificuldades em expressar esse desconforto? Terá fome ou sede? Será que tem uma dor de dentes, uma infeção urinária ou prisão de ventre? Ou será que quer ir à casa-de-banho?; 
  • Falar num tom calmo e reconfortante. Evitar argumentar ou utilizar a lógica, levantar a voz ou dizer para a pessoa se acalmar, tudo isso poderá aumentar ainda mais a ansiedade. O melhor é falar devagar, ouvir e validar as preocupações da pessoa, mostrando que percebemos o nervosismo e frustração da situação em que se encontra, e tentar reconfortá-la, mostrando que está segura e que a ajudaremos no que for necessário. Proporcionar à pessoa contacto físico reconfortante, se ela apreciar e reagir bem, também poderá ajudar a acalmá-la, incluindo dar-lhe um abraço, dar-lhe a mão ou massajar gentilmente as mãos ou as costas. Algumas pessoas também se poderão sentir mais calmas e reconfortadas se estiverem a agarrar algum objeto, como uma mala, uma almofada ou um peluche, pois isso transmite-lhes uma sensação de segurança; 
  • Favorecer que a pessoa fale dos seus medos e preocupações. Ao favorecermos que a pessoa fale daquilo que a preocupa, saberemos melhor o que fazer para a ajudar. Por exemplo, se a pessoa está com receio de ficar isolada das outras pessoas, os seus amigos e familiares podem ajudá-la a sentir-se mais incluída e a continuar socialmente ativa, por exemplo combinando mais encontros ou telefonando mais vezes. Se a pessoa não se sentir muito confortável em falar dos seus receios ou de outros assuntos sensíveis com os seus familiares e amigos, pode procurar-se a ajuda de um psicólogo ou outro profissional de saúde mental com quem a pessoa estabeleça uma relação de confiança e se sinta à vontade para conversar e partilhar as suas preocupações; 
  • Obter ajuda profissional. Contactar profissionais especializados em demência, como psicólogos, terapeutas ocupacionais ou enfermeiros, para aprender mais estratégias para lidar com a ansiedade. Isso inclui técnicas de relaxamento e outras estratégias específicas que funcionem com aquela pessoa com demência, tais como ouvir músicas favoritas ou que a acalmem, massajar as mãos, jardinagem ou cuidar de plantas, aromas que ache agradáveis ou mesmo terapias assistidas por animais; 
  • Redirecionar a atenção da pessoa para a distrair da origem da ansiedade. Tentar direcionar a atenção da pessoa para uma tarefa ou atividade, como música, uma conversa sobre um momento agradável da vida da pessoa ou outra atividade que ela aprecie. Utilizar o humor também pode funcionar muito bem para aligeirar a situação e, ao mesmo tempo, distrair a pessoa; 
  • Ocupar as mãos da pessoa. Se a pessoa esfregar e mexer constantemente nas mãos ou em objetos, e isso for um problema, podemos tentar dar algo para ocupar as mãos da pessoa: pode ser um objeto que aprecie ou que lhe transmita segurança (uma mala ou uma bola macia para a pessoa apertar); podemos criar uma caixa com objetos interessantes em que a pessoa possa mexer à vontade sem qualquer perigo; ou pedir ajuda à pessoa na realização de tarefas domésticas manuais simples, como dobrar roupa, varrer o chão ou limpar o pó com um pano; 
  • Garantir um ambiente calmo e confortável. Reduzir a desarrumação e a quantidade de objetos, o ruído (conversas, televisão, rádio) e o número de pessoas na mesma divisão em que a pessoa com demência se encontra, e garantir que a temperatura da divisão é confortável para a pessoa; 
  • Simplificar as tarefas e atividades. Reduzir a necessidade da pessoa com demência em tomar decisões complexas para si, dividir tarefas e atividades em pequenos passos que a pessoa tenha capacidade para executar, evitando assim que ela fique frustrada;
  • Criar uma rotina diária consistente, o que poderá trazer uma sensação de segurança e tranquilidade à pessoa com demência, por saber o que tem que fazer e o que é esperado dela. Esta rotina pode incluir atividades significativas para a pessoa, incluindo atividades que a façam sentir útil, como por exemplo ajudar nas tarefas domésticas. Manter mobiliário e objetos nos mesmos lugares, e utilizar fotografias e outros objetos familiares também podem transmitir segurança à pessoa, bem como evocar memórias agradáveis; 
  • Promover atividade física regular. A atividade física pode ajudar a pessoa a libertar energia e a reduzir a ansiedade e agitação. Se for possível, tentar que a pessoa saia de casa e passe algum tempo na natureza. Alguns exemplos de atividades são dar um passeio, dançar, atirar um balão ou fazer exercícios de cadeira (ginástica feita com a pessoa sentada numa cadeira); 
  • Limitar o consumo de álcool e cafeína. Evitar ou reduzir o consumo de bebidas e alimentos que contenham cafeína (tais como chá preto ou verde, café, coca-cola ou chocolate) e reduzir a ingestão de álcool; 
  • Consultar o médico que acompanha a pessoa com demência para: 
    • Verificar a existência de sintomas físicos não tratados resultantes de condições como infeções, prisão de ventre, artrite ou outras doenças; 
    • Investigar possíveis efeitos secundários e reações adversas a medicamentos ou a interações entre medicamentos que possa provocar ou agravar a ansiedade; 
    • Averiguar se faz sentido a pessoa com demência tomar algum medicamento para reduzir a ansiedade. 
  • Obter apoio para o cuidador: 
    • Frequentar formações para cuidadores de pessoas com demência, para aumentar as competências, descobrir novas estratégias para lidar com a ansiedade e encontrar outros cuidadores em situação semelhante, com quem partilhar sugestões e dificuldades;
    • Tirar algum tempo para partilhar os seus sentimentos e dificuldades com profissionais, familiares e amigos de confiança; 
    • Ponderar recorrer a apoio psicológico com um psicólogo. 

Conteúdo atualizado a 29 de Novembro de 2022