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Alterações Psicológicas e de Comportamento

A demência provoca alterações de humor e comportamento na pessoa com a doença, o que pode fazer com que a pessoa se comporte de forma muito diferente daquela que sempre se comportou (por exemplo, uma pessoa muito reservada pode ficar bastante faladora e expor a sua vida privada a estranhos). 

Estas alterações podem ser um dos aspetos da doença mais difíceis de lidar, quer para os seus familiares e cuidadores, quer para a própria pessoa com demência. 

Algumas alterações psicológicas e de comportamento frequentes em pessoas com demência são: 

  • Repetir palavras, ações e gestos, como por exemplo fazer a mesma pergunta várias vezes, repetir a mesma tarefa (como fazer e desfazer uma mala) ou fazer vários telefonemas para familiares ou amigos; 
  • Ficar agitada ou inquieta, por exemplo andar de um lado para o outro, fazer gestos nervosos com as mãos (como esfregar as mãos ou mexer repetidamente num objeto) ou outros sinais de ansiedade; 
  • Comportamentos verbais, como gritar, insultar, fazer sons ou chamar por um objeto, local ou pessoa do passado (como a mãe ou o pai); 
  • Falta de inibição, que poderá fazer com que a pessoa se comporte de forma desadequada, por exemplo fazendo comentários rudes e insensíveis, despir-se em público ou comportamentos sexuais desadequados; 
  • Caminhar sem aparente objetivo, muitas vezes durante a noite; 
  • Seguir um cuidador, ou estar constantemente a chamá-lo ou a verificar se está em casa; 
  • Suspeitar e acusar os cuidadores de a estarem a roubar, de a quererem abandonar ou de serem outras pessoas; 
  • Ver ou ouvir coisas que não existem, como pessoas, animais ou sons, podendo ficar perturbada ou agitada; 
  • Ficar deprimida e apática, perdendo o interesse pelas coisas que normalmente se interessava; 
  • Acordar durante a noite, por vezes achando que já é dia; 
  • Ter alterações do apetite e das suas preferências alimentares; 
  • Ficar mais confusa e desorientada ao final do dia, algo que acontece bastante em pessoas com demência. 

É importante termos noção que estas alterações não acontecem em todos os tipos de demência e não acontecem a todas as pessoas. 

As alterações psicológicas e de comportamento variam nas pessoas com demência e dependem de vários fatores, tais como o tipo de demência que a pessoa tem, a sua personalidade e história de vida, a sua saúde física, o ambiente em que está inserida, o apoio que recebe e mesmo a altura do dia em que está.


ÍNDICE DE CONTEÚDOS:


Os Comportamentos têm um Significado e um Propósito 


Apesar de muitas vezes não compreendermos o comportamento da pessoa com demência, esse comportamento terá sempre um significado para a própria pessoa. 

Se conseguirmos perceber o significado e propósito do seu comportamento, e aquilo que o poderá estar a causar, será possível encontrar formas para ajudar a pessoa e proporcionar-lhe bem-estar, ajudando a minimizar o desgaste que alguns comportamentos provocam no cuidador. 

Os comportamentos seguem os seguintes princípios: 

  • Todas as expressões da pessoa (palavras, gestos, ações) têm significado; 
  • Todos os comportamentos comunicam necessidades ou preocupações; 
  • Para se entender o significado dos comportamentos é preciso considerar os fatores que influenciam o comportamento (físicos, médicos, sociais, ambientais, psicológicos).


Comportamento como comunicação de necessidades e sentimentos 

O comportamento é uma forma de comunicação, uma expressão dos nossos sentimentos e necessidades. Com a progressão da demência, a pessoa vai perdendo a capacidade de falar e o seu raciocínio vai ficando mais pobre, o que torna cada vez mais difícil que expresse, de forma verbal ou escrita, aquilo que sente e precisa. 

No entanto, a pessoa continua a conseguir comunicar de outras maneiras, através de linguagem corporal, gestos, expressões faciais, tom de voz e atitude. Assim, o comportamento da pessoa com demência torna-se a melhor forma dela conseguir comunicar aquilo que precisa e a melhor forma dos cuidadores entenderem essas necessidades. 

A pessoa com demência tem as mesmas necessidades que as outras pessoas, uma mistura de necessidades físicas, sociais e psicológicas, que incluem: 

  • Sentir-se confortável, física e psicologicamente. Estar livre de dor e sofrimento, sem preocupações excessivas e sentindo-se em segurança; 
  • Sentir-se emocionalmente ligada a outra(s) pessoa(s). O ser humano é um ser social e precisa de ter ligações especiais com outras pessoas; 
  • Fazer parte de um grupo. Estar num grupo, entre iguais, é essencial para o desenvolvimento de qualquer pessoa em todas as fases da vida. Isso dá-lhe oportunidade de se relacionar com os outros e de se valorizar através da sua participação social; 
  • Estar ocupada. Ter uma ocupação, especialmente se for significativa, é ter um sentido e um futuro, o que promove o sentimento de controlo da pessoa sobre a sua própria vida. Para além disso, a ocupação permite desenvolver competências e viver diferentes papéis; 
  • Ter uma identidade. A nossa identidade relaciona-se com saber quem somos e permite-nos ter uma sensação de continuidade com o passado. É ter uma história de vida que é mantida quer por nós, quer pelos outros. 

No entanto, devido às dificuldades da doença, as pessoas com demência podem ter mais dificuldade em reconhecer as suas necessidades, em saber como satisfazê-las ou como comunicá-las aos outros. 

Apesar de alguns comportamentos resultarem diretamente das alterações no cérebro, muitos comportamentos mais difíceis de lidar acontecem porque a pessoa: 

  • Não tem uma necessidade satisfeita; 
  • Está a tentar satisfazer uma necessidade (por exemplo, despir a roupa porque está com muito calor); 
  • Está a tentar comunicar essa necessidade aos outros (por exemplo, começar a gritar porque precisa de urinar e quer ir à casa-de-banho). 

Deste modo, sempre que exista uma mudança no comportamento da pessoa com demência, devemos pensar qual será a necessidade ou preocupação que ela está a tentar comunicar com esse comportamento

Para o fazer, ajudará colocarmo-nos na pele da pessoa com demência, imaginando como nos sentiríamos e como nos comportaríamos se não nos lembrássemos das coisas, se tivéssemos dificuldade em pensar e falar, se não conseguíssemos reconhecer a nossa família e amigos ou mesmo orientarmo-nos dentro da nossa própria casa. 

Para além disso, quanto mais soubermos sobre a pessoamais facilmente conseguiremos entender aquilo que o seu comportamento pretende comunicar. História de vida, empregos que teve, relações e pessoas importantes, crenças religiosas, preferências e rotinas, formas de reagir e lidar com acontecimentos de vida – tudo isso pode dar pistas sobre o significado de algum comportamento e ajudar a compreender as necessidades da pessoa naquele momento.


Identificar os gatilhos e padrões dos comportamentos 

Todos os comportamentos são desencadeados por um estímulo ou “gatilho”. Quando o comportamento de uma pessoa se altera, é importante perceber o que poderá ter provocado essa mudança. 

Terá sido algo que alguém fez ou disse à pessoa? Terá sido uma mudança ou estímulo no ambiente em que a pessoa está inserida que poderá ter provocado confusão ou desencadeado uma memória? O comportamento mudou subitamente? Se mudou, então a causa poderá ser física, a pessoa poderá estar com dor ou desconforto devido, por exemplo, a prisão de ventre ou a uma infeção. 

Os comportamentos seguem muitas vezes um padrão e, se conseguirmos identificar esses padrões, poderá ser mais fácil perceber a necessidade ou preocupação que a pessoa com demência está a tentar comunicar. Por exemplo: 

  • Alguns comportamentos acontecem numa altura específica do dia? 
  • A mudança de comportamento acontece quando é pedido à pessoa que ela faça algo que não quer fazer? 
  • O comportamento acontece quando é dita uma palavra específica à pessoa ou quando lhe é mostrado determinado objeto? 
  • Será que existe muito barulho, calor ou desarrumação nalguma divisão da casa e isso perturba a pessoa? 

Assim, é importante estarmos atentos e estudarmos o comportamento da pessoa: como, onde e quando parece ter começado e o que ajudou a que a pessoa se acalmasse ou que o comportamento parasse? Foi algo que dissemos que a acalmou? Se sim, o que foi e qual o tom? Havia outra pessoa presente nesse momento? 

Registar os acontecimentos num diário ou caderno poderá ajudar a identificar e reconhecer os estímulos que desencadeiam os comportamentos, bem como as estratégias que melhor funcionam para lidar com eles. 

Poderá também registar esses comportamentos na secção de "Ocorrências" da Home360Appoiar. Para ter acesso a essa secção será necessário criar conta primeiro (ver "Criar Conta").


Causas das Alterações Psicológicas e de Comportamento 


Enquanto algumas destas alterações estão diretamente relacionadas com a degeneração do cérebro provocada pela demência (morte de neurónios e alterações químicas), outras devem-se a problemas médicos e físicos, a estímulos do ambiente em que a pessoa está inserida, ou a reações psicológicas às perdas, sentimentos e preocupações decorrentes da experiência de viver com a doença. 


Alterações provocadas pela demência 

A demência provoca uma morte gradual de neurónios e outras alterações químicas no cérebro. Isso faz com que alguns comportamentos da pessoa se alterem, dependendo da zona do cérebro onde a maior perda acontece. 

Por exemplo, a zona frontal do cérebro, situada atrás dos olhos, controla a nossa concentração, motivação e outros aspetos como a capacidade de controlar os nossos impulsos. Se a demência provocar mais alterações nessa zona, a pessoa poderá ter mais dificuldade em planear ou concentrar-se, poderá ter menos motivação e ficar mais parada e apática, ou poderá passar a agir de forma mais rude e insensível. 

A demência poderá também provocar delírios (ideias em que a pessoa acredita mas que não correspondem à realidade) e alucinações (ver, ouvir ou sentir coisas que não existem), que podem ser confusas e assustadoras para a pessoa com demência, influenciando a forma como se comporta e reage às situações. 


Problemas médicos e físicos 

A pessoa com demência pode ter alguma condição que lhe provoque dor ou desconforto e ser incapaz de se expressar devido às dificuldades cognitivas. Como tal, poderá ficar agitada ou agressiva. É particularmente importante descartar as causas médicas quando as alterações de comportamento são súbitas e abruptas. 

Alguns problemas médicos e físicos que frequentemente causam alterações de comportamento na pessoa são: 

  • Infeções urinárias ou respiratórias; 
  • Prisão de ventre; 
  • Sede ou fome; 
  • Artrite (a dor provocada pela artrite é comum em pessoa idosas, mas é muitas vezes esquecida nas pessoas com demência. Uma pessoa que sofre de artrite poderá esfregar a zona que lhe dói ou protegê-la e evitar que alguém lhe toque); 
  • Aftas, próteses dentárias soltas ou mal colocadas, cáries e infeções e dores de dentes; 
  • A pessoa estar muito tempo na mesma posição (sentada ou deitada, por exemplo); 
  • A pessoa ter-se urinado e não ser capaz de o comunicar; 
  • A pessoa pode estar descompensada devido a alguma outra doença de que sofre, como por exemplo diabetes; 
  • Alterações ou perdas de visão e audição, que podem fazer com que a pessoa interprete o ambiente de forma errada, ou que deixe de conseguir ver televisão, identificar as outras pessoas ou perceber as conversas ou atividades, o que pode fazer com que vá desistindo e se vá retirando, ficando mais calada e isolada. 


Problemas sociais e ambientais 

A demência altera a forma como a pessoa reage ao ambiente. Muito ruído, luz, calor, conversas, pessoas ou atividades podem estimular demais a pessoa com demência, tornando-se muito difícil para a pessoa processar ou mesmo compreender os estímulos. 

Por outro lado, se a pessoa com demência tiver poucos estímulos ou atividades, se passar pouco tempo com outras pessoas ou se, quando está com pessoas, não se sentir incluída, a pessoa poderá sentir-se aborrecida, só e isolada. 

Para além disso, muitas pessoas com demência passam a depender das pessoas à sua volta como referência sobre como se devem comportar ou sentir. Por exemplo, se um cuidador estiver nervoso e preocupado, a pessoa com demência poderá espelhar essas emoções, ficando também ela nervosa e preocupada. 

O mesmo acontece se alguém falar com a pessoa de forma mais rude ou agressiva, se a tratar como um criança, se ignorar as suas vontades e desejos ou se a tentar apressar, tudo comportamentos que podem levar a pessoa a sentir-se triste ou irritada. 

Existem também estímulos no ambiente que podem agitar a pessoa, por ela não os compreender. Por exemplo, a pessoa pode ver o seu reflexo no espelho e não se reconhecer, achando que está outra pessoa em sua casa, o que a pode levar a ficar ansiosa e com medo. 

Sons altos e repentinos, como o telefone ou a campainha, podem também agitar a pessoa, bem como as mudanças de rotina ou dos locais da mobília e dos objetos, que tiram à pessoa as poucas referências familiares que ela ainda mantém, aquilo que lhes transmite segurança num mundo cada vez mais confuso. 


Reações psicológicas às dificuldades, perdas e ameaças associadas 

As dificuldades de memória e raciocínio provocadas pela demência vão fazer com que a vida da pessoa mude drasticamente. A pessoa deixará de fazer atividades que sempre fez e que lhe são significativas, e precisará de ajuda noutras, incluindo atividades diárias básicas como tomar banho. 

Tudo isso poderá provocar frustração na pessoa e sentimentos de perda de controlo da sua vida, deixando-a preocupada com o seu futuro e com o daqueles que a rodeiam. Isso pode conduzir, por exemplo, a que a pessoa: 

  • Fique zangada e reaja de forma agressiva; 
  • Fique triste ou deprimida e reaja com apatia e desinteresse pela vida; 
  • Perca a confiança nas suas capacidades e reaja com medo e nervosismo a qualquer atividade que precisa de fazer ou ande constantemente atrás do cuidador pois sente que está dependente dele para tudo o que seja necessário; 
  • Tenha medo de perder objetos de valor e por isso comece a guardá-los e a acumulá-los em gavetas, armários ou outros locais; 
  • Não aceite que alguém trate dela, em especial se houver uma inversão de papéis (por exemplo, uma mulher que sempre cuidou do marido e dos filhos e que agora é cuidada por eles). 

Para além disso, as alterações de memória e as outras dificuldades cognitivas podem confundir a pessoa com demência, fazendo com que ache que está num local ou num tempo diferente, e fará com que reaja como se fosse essa a realidade. Por exemplo, a pessoa pode acreditar que tem que ir trabalhar e, como tal, ficar agressiva caso alguém a tente demover. 

Outro exemplo é não reconhecer a própria casa como sua, e como tal, ter vontade de ir para a casa de que se recorda (muitas vezes uma casa em que viveu na infância), o que a pode levar a ficar agitada e a querer sair. 

Pode também acontecer que um determinado estímulo (como uma fotografia, um objeto ou uma conversa), faça desencadear na pessoa uma memória antiga, da infância ou de outro período do passado, e que essa memória a perturbe ou a deixe feliz, alterando o seu comportamento. 


Alterações Psicológicas e de Comportamento Frequentes


De seguida, encontra um conjunto de alterações psicológicas e de comportamento frequentes em pessoas com demência. 

Para cada alteração existe uma breve explicação, bem como uma lista de possíveis causas e uma lista de estratégias para prevenir e lidar com essas alterações.

Na secção “Intervenção em Crise”, encontrará informação sobre como identificar os fatores que podem estar a causar um comportamento e como agir quando existe um comportamento de maior agitação ou agressividade. 

 

Ansiedade e agitação

Procurar, esconder e acumular objetos

Seguir e chamar o cuidador

Caminhar e perder-se

Comportamentos repetitivos

Gritar e fazer sons

Agressividade

Delírios, suspeitas e acusações

Alucinações

Desinibição social e sexual

Apatia e perda de interesses

Alterações do sono

Alterações do apetite

Depressão

Síndrome do pôr do sol (Sundowning)

Intervenção em Crise

Conteúdo atualizado a 30 de Novembro de 2022